HISTÓRIA DA ÁSIA – Carlos de Faria Júnior
Sumário
Quadro-síntese
Contextualização
Breve apresentação
I - Orientalismo, pensamento oriental e apontamentos sobre a antiguidade oriental.
1.1) O Orientalismo e o olhar ocidental sobre o Oriente
1.2) Características específicas do Pensamento oriental e das sociedades orientais
1.3) China, Índia e Japão: apontamentos para um estudo da antiguidade oriental
II – O Oriente na Idade Média.
2.1) Afirmação dos Estados Orientais
2.2) O comércio oriental
2.2) O comércio oriental
2.3) Expansão religiosa: budismo, hinduísmo e islamismo
III – O Oriente da Era Moderna ao fim do século XIX.
3.1) A presença ocidental no Oriente: guerras e comércio
3.2) A revolução Meiji: modernidade, tradição e presença estrangeira
3.3) A Guerra do Ópio e a resistência na China; influência do pensamento de Confúcio
3.2) A revolução Meiji: modernidade, tradição e presença estrangeira
3.3) A Guerra do Ópio e a resistência na China; influência do pensamento de Confúcio
3.4) Os Sipaios e a resistência indiana
3.5) A popularização da Arte no Oriente e sua importância para a História
3.5) A popularização da Arte no Oriente e sua importância para a História
IV – O Oriente do século XX aos dias atuais.
4.1) Os processos de descolonização na Ásia
4.2) Mahatma Gandhi e a independência da Índia; Muhammad Jinnah, o Paquistão e a quebra da Unidade indiana
4.3) As sociedades orientais no Pós Guerra; as Guerras da Coréia e do Vietnã; Mao Zedong e a Revolução Chinesa
4.4) Conflitos no Oriente Médio: Sionismo e Nasserismo
4.2) Mahatma Gandhi e a independência da Índia; Muhammad Jinnah, o Paquistão e a quebra da Unidade indiana
4.3) As sociedades orientais no Pós Guerra; as Guerras da Coréia e do Vietnã; Mao Zedong e a Revolução Chinesa
4.4) Conflitos no Oriente Médio: Sionismo e Nasserismo
Glossário
Referências Bibiográficas
QUADRO-SÍNTESE
TEMÁTICAS
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OBJETIVOS
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I - Orientalismo, pensamento oriental e apontamentos sobre a antiguidade oriental.
1.4) O Orientalismo e o olhar ocidental sobre o Oriente
1.5) Características específicas do Pensamento oriental e das sociedades orientais
1.6) China, Índia e Japão: apontamentos para um estudo da antiguidade oriental
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- Identificar e compreender o “orientalismo” e as dificuldqades que esta ideologia trazem para a abordagem do Oriente;
- Analisar as características específicas do pensamento oriental e as formas mais adequadas de aqbordagem das sociedades orientais.
- Estudar os aspectos básicos da antiguidade dos grandes povos do extremo Oriente.
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II – O Oriente na Idade Média.
2.4) Afirmação dos Estados Orientais
2.5) O comércio oriental
2.6) Expansão religiosa: budismo, hinduísmo e islamismo
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- Identificar os elementos que caracterizam a afirmação de China, Índia e Japão enquanto Estados e culturas específicas;
- Estudar a importância do comércio oriental para o Ocidente;
- Analisar os três grandes movimentos de expansão religiosa no Oriente citados.
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III– O Oriente da Era Moderna ao fim do século XIX.
3.6) A presença ocidental no Oriente: guerras e comércio
3.7) A revolução Meiji: modernidade, tradição e presença estrangeira
3.8) A Guerra do Ópio e a resistência na China; influência do pensamento de Confúcio
3.9) Os Sipaios e a resistência indiana
3.10) A popularização da Arte no Oriente e sua importância para a História
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- Identificar os motivos e os interesses que levaram os ocidentais ao Oriente na Era Moderna em termos de comércio;
- Analisar a transição de formas de governo no Japão do século XIX e a importância da era Meiji;
- Estudar e compreender a resistência chinesa em relação a tentativa de domínio estrangeiro na Guerra do Ópio;
- Identificar e compreender o movimento dos Sipaios como a primeira forma de resistência indiana à dominação estrangeira;
- Estudar a abordagem oriental da arte e sua inserção nas sociedades orientais.
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IV – O Oriente do século XX aos dias atuais.
4.5) Os processos de descolonização na Ásia
4.6) Mahatma Gandhi e a independência da Índia; Muhammad Jinnah, o Paquistão e a quebra da Unidade indiana
4.7) As sociedades orientais no Pós Guerra; as Guerras da Coréia e do Vietnã; Mao Zedong e a Revolução Chinesa
4.8) Conflitos no Oriente Médio: Sionismo e Nasserismo
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- Compreender a importância dos processos de descolonização para a construção da Ásia moderna e em relação ao cenário internacional;
Identificar a política de resistência establecida na Índia por Mahatma Gandhi e a formação do Estado do Paquistão;
- Identificar as sociedades do extremo Oriente n pós-guerra;
- Estudar e compreender as tentativas de intervenção dos países estrangeiros na Coréia e no Vietnã;
- Analisar o Sionismo Político, a formação do Estado de Israel e as conseqüências deste processo para a Palestina e as sociedades do Oriente Médio;
- Compreender o papel de Nasser na tentativa de implantação da Unidade entre os Estados Árabes.
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CONTEXTUALIZAÇÃO
A História da Ásia insere-se em contextos totalmente diversos do Ocidente e das formas de abordagem comuns aos ocidentais de povos e indivíduos.
Sendo assim, requer todo um cuidado em seu estudo, pois tratam-se de culturas distintas e diversas da nossa e que, por conta mesmo de tais distinção e diversidade, tem muitas das vezes sido situadas erroneamente na condição de inferiores e subalternas.
O ponto de partida para a construção de uma pesquisa histórica coerente sobre as culturas orientais e analisá-las dentro e à partir de seus contextos, ou seja, deixando de lado nossas posições apriorísticas em relação ao “outro” e os paradigmas comuns de “razão” e “civilização”, específicos do contexto liberal e tão caros a muitas sociedades ocidentais.
À partir de então, o estudo e a pesquisa, seguindo uma trilha semelhante à que acabamos de apontar, desenvolver-se-ão dentro do universo oriental e com cada vez menos chances de erros ou equívocos.
BREVE APRESENTAÇÃO
Este conteúdo não é um material final ou didático, no sentido secundarista do termo.
Ele é um elemento que aponta caminhos para o estudo das sociedades do estremo Oriente. Não deve ser tomado, portanto, como único material a ser estudado e lido, em hipótese alguma.
As questões propostas podem não se prender, portanto, ao que esteja estritamente escrito neste material, uma vez que ele é um sinalizador de caminhos a serem trilhados pela pesquisa histórica referente ao Oriente.
As imagens aqui utilizadas são de tanta importância quanto os textos escritos, e pode-se fazer destas imagens também uma leitura, ou melhor, deve-se fazer.
O que se apresenta neste trabalho é um esforço no sentido da pesquisa histórica moderna sobre o Oriente.
Significa que buscamos abordar as sociedades orientais pelos seus próprios contextos e utilizando seus instrumentais de pensamento e cultura, os quais, dentro dos nossos padrões ocidentais de abordagem, muitas das vezes reduzem-se a meros sistemas teórico-metodológicos de ciência.
Nossa preocupação é a pesquisa histórica coerente, nosso compromisso é a visualização não pragmática do Oriente. Nossa tarefa é, ao contrário do que se pensa, bastante simples : adentrar nos meandros de sociedades culturalmente diversas, e a garantia de tal simplicidade requer evidentemente esforço. A ausência deste tornaria a atividade intensamente complexa.
Esperamos que nosso esforço seja bem compreendido por todos e que possamos, desta forma, mais do que realizar uma pesquisa histórica ou análise de sociedades diversas da nossa, contribuir para a aproximação do “outro” sem a depreciação ou diminuição deste, ou seja, compreendendo as diferenças e valorizando-as nas qualidades de cultura e humanidade.
Carlos de Faria Júnior
I – Orientalismo, pensamento oriental e apontamentos sobre a antiguidade oriental.
1.1) O Orientalismo e o olhar ocidental sobre o Oriente
Na segunda metade do século passado-especificamente durante e após os processos de descolonização ocorridos nos continentes africano e asiático - uma nova visão da áfrica e da Ásia começou a ser elaborada tanto no campo político quanto nos campos do saber.
Vamos nos ater,neste texto especificamente ao continente asiático e a partes do continente africano que se enquadram perfeitamente na cultura do oriente Médio.
Pode se afirmar que, a partir do contexto anteriormente citado,iniciou-se uma visualização dos povos asiáticos fora das características do exótico e do erótico.Na década de oitenta do século passado, o pesquisador palestino Edward Said a parir da teoria denominada “orientalismo”,estabeleceu tanto na esfera política quanto nos campos do saber uma critica visivelmente bem construída as formas mentais de apropriação dos povos asiáticos, seja na individualidade ou na coletividade.
Edward Said, Jerusalém-Palestina, 1935 - Nova York, 2003.
Fonte: http://antropologiaufsm.blogspot.com/2010/09/dialogo-com-edward-said.html
Classificando a abordagem tradicional na condição de orientalista, Said afirmou que tal abordagem era preconceituosa e denunciou seu caráter pragmático, pois a mesma não apenas identificava o oriental como inferior, como também justificava não somente outras visões preconceituosas mas também, a própria atitude imperialista do Ocidente para com o Oriente.
O orientalismo, na visão de Said cria uma identidade de exotismo para o oriental. A cultura do Oriente transforma-se num objeto de consumo para o ocidente.Tal consumo é ignorante no que se refere ao cerne da cultura Oriental, e procura reescreve-la tendo por base os instrumentos característicos da cultura ocidental.
As teorias de Said não apenas denunciaram o abuso da apropriação equivocada por parte do ocidental para com o oriental. Elas representam o ponto de partida
de uma critica da visão tradicional do Ocidente para com o Oriente, nos aspectos político,econômico,social e cultural.
A historia teve e tem de rever quase que toda a sua abordagem a respeito do oriente, uma vez que lamentavelmente se enquadrou nas formas tradicionais de pesquisa, que prescrevem um Oriente cuja a identidade é exótica , inferior e dependente das trajetórias ocidentais.Alguns absurdos Acadêmicos ainda estão nítidos nos dias de hoje, no que se refere a esta temática.Cursos inteiros e programas de pesquisa sobre o Oriente são montados visualizando a dominação ocidental sobre os povos orientais.
Ora, esta forma de pesquisar e investigar nunca foi e nunca será uma historia do Oriente em seu sentido pleno, mas o é apenas na denominação.Este tipo de pesquisa refere-se na verdade apenas e tão somente a presença Ocidental no Oriente.
Se quisermos compreender a historia e a cultura dos povos orientais com o máximo de exatidão possível, temos que basear nossas investigações no próprio Oriente e também nos instrumentos que a própria historia oriental ira nos fornecer. Noutros termos,temos que investigar o Oriente pelo Oriente,e não pelos paradigmas ocidentais.Estudar uma cultura com base nos padrões de outra cultura não é historia comparada, mas obtusa.
O Instrucional que ora se apresenta busca vivenciar este novo tipo de abordagem da História da Ásia, ou seja, sem orientalismos. Não se trata de uma tarefa fácil, até mesmo porque trata-se de um empreendimento recente por parte dos pesquisadores. Contudo, cremos que o resultado do mesmo é uma pesquisa histórica mais completa e lógica, respeitando a diversidade cultural do mundo e considerando as culturas asiáticas como autônomas e portadoras de uma identidade própria, que nada deixa a dever ao Ocidente.
1.2) Características específicas do Pensamento oriental e das sociedades orientais
É muito comum entre os povos orientais o culto aos antepassados, sendo este de caráter formal ou informal. Podem variar entre as sociedades as formas de se cultuar os antepassados, mas a essência é sempre a mesma. O antepassado não é senão um espírito de alguém que morreu dentre os que vivem na Terra, seja próximo ou distante. Um familiar direto – pai, mãe, filHo, avós, etc. – é antepassado tanto quanto os mais distantes.
Há um cuidado especial dos orientais nesta questão.
Estátua de Confúcio.
Fonte: http://atuleirus.weblog.com.pt/arquivo/2005/09/confucio_8_de_s
Fonte: http://www.grandefraternidadebranca.com.br/confucio.htm
Fonte: http://www.grandefraternidadebranca.com.br/confucio.htm
Outra crença comum é a da reencarnação. Vale aqui o que afirmamos anteriormente, ou seja, a questão da reencarnação varia entre as diversas sociedades orientais, mas a essência é sempre a mesma. O Xintoísmo, por exemplo, acredita em uma escala de valores que define a reencarnação. O hinduísmo apresenta a roda de samsara – das reencarnações – e aponta as possibilidades do ser sair da mesma.
Roda de Samsara
Há uma ética bastante comum entre os orientais no que diz respeito aos mais velhos. Estes se apresentam como portadores de experiências dignas que devem ser apreendidas pelos mais jovens. É claro que tal questão se defronta com a identidade e o caráter individual de cada ser. No entanto, a tendência ética é pela valorização dos mais velhos.
Lao-tzu
Fonte: http://www.journeytopeak.com/2011/01/my-top-20-favourite-quotes/
Os estudos ocidentais sobre o caráter das religiões orientais tem revelado conclusões intensamente equivocadas, e isto cremos por uma questão muito simples: no Ocidente, há uma nítida separação entre o sagrado e o profano, enquanto o oriental trabalha com a mentalidade do uno. O mundo oriental, portanto, mesmo resguardando os espaços do sagrado e do profano, percebe em tudo uma unidade. A noção de pecado entre os orientais é distinta da ocidental – se é que seja possível aplicá-la. Coisas que para o homem ocidental caíram no terreno do pecado – como o sexo, por exemplo – no mundo oriental pertencem à esfera do divino. Eis aqui um exemplo: quem vai a cidade de Kawasaki, no Japão, no início do mês de abril de cada ano, irá achar que está num sex shop ao ar livre, e possivelmente recriminará a cena. Na verdade, trata-se do Festival Kanawara Matsuri, que ocorre na cidade onde fica o Templo do Pênis Rosa, de mais de cento e cinqüenta anos. Este festival tem por finalidade saudar e pedir a fertilidade, e os japoneses levam o ritual muito a sério, apesar das guloseimas diversas e artefatos também diversos vendidos no festival em formato de órgãos sexuais masculino ou feminino.
1.3) China, Índia e Japão: apontamentos para um estudo da antiguidade oriental
Seria absurdo neste item do trabalho querer abarcar toda a antiguidade oriental. Portanto, o que podemos oferecer são apontamentos que sirvam de sugestão a futuras pesquisas sobre o tema.
Até cerca de 200 a .C na China dominavam dinastias de reinos. A unificação do Império ocorrerá com Qin shi Huangdi exatamente neste período.
A fundição de ferro começa cerca de 400 a .C., bem como as culturas do arroz e do trigo.
No que se refere às correntes de pensamento, temos entre 600 e 500 a .C. o surgimento tanto do confucionismo quanto do taoísmo filosófico. Estas correntes manter-se-iam até os dias de hoje, sendo que a partir de 200 da era cristã surgem algumas variantes, respectivamente o neoconfucionismo e o taoísmo popular.
No que ser refere ao Japão, os períodos denominados Jomon e Yayoi se enquadram da pré-história à antiguidade. Muito difícil encontrar monumentos arquitetônicos japoneses deste período, considerando-se que a grande maioria ser de madeira e esta se consumiu com o passar dos anos.
Diversos textos variam no datar as origens da Índia, alguns falando em 3000 anos a.C., outros em 5000. É importante salientar que nesse período viveu e floresceu a civilização védica, dos brâmanes e do hinduísmo. No século III a.C. o rei Asoka, do Império Máuria, conquistou a Ásia Meridional e implantou o budismo como religião oficial. No entanto, o hinduísmo não estava morto, e à partir do século III ressurge, ao lado do budismo, com a dinastia Gupta, no período conhecido como a idade de ouro da Índia, sobretudo pela produção artística.
O fato é eu as culturas védicas são milenares.
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TEXTO COMPLEMENTAR
Lunyu, ou Conversações de Confúcio, CapítuloS 2 E 6.
2.1 O Mestre disse: "Quem governa pela virtude é como a estrela polar, que permanece imóvel no seu lugar enquanto todas as outras estrelas circulam respeitosamente em torno dela".
2.2 O Mestre disse: "Os trezentos Poemas resumem-se numa única frase :'Não penses no mal'".
2.3 O Mestre disse: "Guia-o por meio de manobras políticas, contém-no com castigos: o povo se tornará dissimulado e desavergonhado. guia-o pela virtude, contém-no pelo ritual: ele desenvolverá um senso de vergonha e um senso de participação".
2.4 O Mestre disse: "Aos quinze anos, orientei minha mente para aprender. Aos trinta, plantei meus pés firmemente no chão. Aos quarenta, não tinha mais dúvidas. Aos cinqüenta, conhecia a vontade do Céu. Aos sessenta, meu ouvido estava sintonizado. Aos setenta, sigo todos os desejos de meu coração sem transgredir nenhuma regra".
2.5 O senhor Meng Yi perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "Nunca desobedeças".
Quando Fan Chi o estava conduzindo em sua carruagem, o Mestre lhe disse: "Meng Yi perguntou-me sobre piedade filial e eu respondi: 'Nunca desobedeças' ". Fan Chi disse: "O que isso significa?" O Mestre disse: "Quando teus pais estão vivos, serve-os de acordo com o ritual. Quando eles morrem, enterra-os de acordo com o ritual, oferece-lhes sacrifícios de acordo com o ritual".
2.6 O senhor Meng Wu perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "O único momento em que um filho devotado faz seus pais se preocuparem é quando está doente".
2.7 Ziyou perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "Hoje em dia as pessoas acham que são filhos devotados quando sustentam seus pais. Mas elas também sustentam seus cachorros e cavalos. Se não há respeito, qual é a diferença?"
2.8 Zixia perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "É a atitude que importa. Se os jovens apenas oferecem seus serviços quando há trabalho para fazer, ou deixam os mais velhos beber e comer quando há vinho e comida, como isso pode ser considerado piedade filial?"
2.9 O Mestre disse: "Posso falar o dia inteiro com Yan Hui - ele nunca levanta nenhuma objeção, parece estúpido. No entanto, observa-o quando está sozinho: suas ações refletem plenamente o que ele aprendeu. Oh não, Hui não é estúpido!"
2.10 O Mestre disse: "Descobre por que um homem age, observa como ele age e examina onde ele encontra sua paz. Haverá algo que ele ainda possa esconder?"
2.11 O Mestre disse: "Quem, ao repassar o velho, descobre o novo é apto para ser professor".
2.12 O Mestre disse: "Um cavalheiro não é um pote".
2.13 Zigong perguntou sobre o verdadeiro cavalheiro. O Mestre disse: "Ele prega apenas o que pratica".
2.14 O Mestre disse: "O cavalheiro considera mais o todo do que as partes. O homem pequeno considera mais as partes do que o todo".
2.15 O Mestre disse: "Estudar sem pensar é fútil. Pensar sem estudar é perigoso".
2.16 O Mestre disse: "Atacar uma questão pelo lado errado - isso é de fato danoso".
2.17 O Mestre disse: "Zilu, vou ensinar-te o que é o conhecimento. Tomar o que sabes pelo que sabes, e o que não sabes pelo que não sabes, isso é conhecimento".
2.18 Zizhang estudava na esperança de obter um cargo oficial. O Mestre disse: "Recolhe muita informação, põe de lado o que é duvidoso, repete cuidadosamente o resto; então, raramente dirás algo errado. Faz muitas observações, deixa de lado o que é suspeito, dedica-te cuidadosamente ao resto; então raramente terás do que te arrepender. Com poucos erros no que dizes e poucos arrependimentos pelo que fazes, tua carreira está garantida".
2.19 O duque Ai perguntou: "O que deveria fazer para conquistar o coração do povo?" Confúcio respondeu: "Promove os homens retos e coloca-os acima dos tortos, e conquistarás o coração do povo. Se promoveres os tortos e os colocares acima dos retos, o povo te negará apoio".
2.20 O senhor Ji Kang perguntou: "O que deveria fazer para tornar o povo respeitoso, leal e zeloso?" O Mestre disse: "Aproxima-te dele com dignidade e ele será respeitoso. Sê, tu mesmo, um bom filho e um pai gentil, e o povo será leal. Promove os bons e educa os incompetentes, e o povo será zeloso".
2.21 Alguém perguntou a Confúcio: "Mestre, por que não estais atuando no governo?" O Mestre disse: "Nos Documentos está escrito: "Basta cultivares a piedade filial e seres gentil com teus irmãos, e estarás contribuindo para a política". Esta também é uma forma de ação política; não é necessário atuar no governo".
2.22 O Mestre disse: "Com um homem que não fosse confiável, eu não saberia o que fazer. Como poderias puxar uma carroça sem uma canga ou uma carruagem sem as varas?"
2.23 Zizhang perguntou: "Podemos prever o futuro daqui a dez gerações?" O Mestre disse: "Yin adotou o ritual de Xia: podemos saber o que desapareceu e o que foi adicionado. Zhou adotou o ritual de Yin: podemos saber o que desapareceu e o que foi adicionado. Se Zhou tiver sucessores, poderemos saber como eles serão, mesmo daqui a centenas de gerações".
2.24 O Mestre disse: "Adorar deuses que não são os nossos é bajulação. Não agir quando a justiça exige é covardia".
2.1 O Mestre disse: "Quem governa pela virtude é como a estrela polar, que permanece imóvel no seu lugar enquanto todas as outras estrelas circulam respeitosamente em torno dela".
2.2 O Mestre disse: "Os trezentos Poemas resumem-se numa única frase :'Não penses no mal'".
2.3 O Mestre disse: "Guia-o por meio de manobras políticas, contém-no com castigos: o povo se tornará dissimulado e desavergonhado. guia-o pela virtude, contém-no pelo ritual: ele desenvolverá um senso de vergonha e um senso de participação".
2.4 O Mestre disse: "Aos quinze anos, orientei minha mente para aprender. Aos trinta, plantei meus pés firmemente no chão. Aos quarenta, não tinha mais dúvidas. Aos cinqüenta, conhecia a vontade do Céu. Aos sessenta, meu ouvido estava sintonizado. Aos setenta, sigo todos os desejos de meu coração sem transgredir nenhuma regra".
2.5 O senhor Meng Yi perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "Nunca desobedeças".
Quando Fan Chi o estava conduzindo em sua carruagem, o Mestre lhe disse: "Meng Yi perguntou-me sobre piedade filial e eu respondi: 'Nunca desobedeças' ". Fan Chi disse: "O que isso significa?" O Mestre disse: "Quando teus pais estão vivos, serve-os de acordo com o ritual. Quando eles morrem, enterra-os de acordo com o ritual, oferece-lhes sacrifícios de acordo com o ritual".
2.6 O senhor Meng Wu perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "O único momento em que um filho devotado faz seus pais se preocuparem é quando está doente".
2.7 Ziyou perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "Hoje em dia as pessoas acham que são filhos devotados quando sustentam seus pais. Mas elas também sustentam seus cachorros e cavalos. Se não há respeito, qual é a diferença?"
2.8 Zixia perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "É a atitude que importa. Se os jovens apenas oferecem seus serviços quando há trabalho para fazer, ou deixam os mais velhos beber e comer quando há vinho e comida, como isso pode ser considerado piedade filial?"
2.9 O Mestre disse: "Posso falar o dia inteiro com Yan Hui - ele nunca levanta nenhuma objeção, parece estúpido. No entanto, observa-o quando está sozinho: suas ações refletem plenamente o que ele aprendeu. Oh não, Hui não é estúpido!"
2.10 O Mestre disse: "Descobre por que um homem age, observa como ele age e examina onde ele encontra sua paz. Haverá algo que ele ainda possa esconder?"
2.11 O Mestre disse: "Quem, ao repassar o velho, descobre o novo é apto para ser professor".
2.12 O Mestre disse: "Um cavalheiro não é um pote".
2.13 Zigong perguntou sobre o verdadeiro cavalheiro. O Mestre disse: "Ele prega apenas o que pratica".
2.14 O Mestre disse: "O cavalheiro considera mais o todo do que as partes. O homem pequeno considera mais as partes do que o todo".
2.15 O Mestre disse: "Estudar sem pensar é fútil. Pensar sem estudar é perigoso".
2.16 O Mestre disse: "Atacar uma questão pelo lado errado - isso é de fato danoso".
2.17 O Mestre disse: "Zilu, vou ensinar-te o que é o conhecimento. Tomar o que sabes pelo que sabes, e o que não sabes pelo que não sabes, isso é conhecimento".
2.18 Zizhang estudava na esperança de obter um cargo oficial. O Mestre disse: "Recolhe muita informação, põe de lado o que é duvidoso, repete cuidadosamente o resto; então, raramente dirás algo errado. Faz muitas observações, deixa de lado o que é suspeito, dedica-te cuidadosamente ao resto; então raramente terás do que te arrepender. Com poucos erros no que dizes e poucos arrependimentos pelo que fazes, tua carreira está garantida".
2.19 O duque Ai perguntou: "O que deveria fazer para conquistar o coração do povo?" Confúcio respondeu: "Promove os homens retos e coloca-os acima dos tortos, e conquistarás o coração do povo. Se promoveres os tortos e os colocares acima dos retos, o povo te negará apoio".
2.20 O senhor Ji Kang perguntou: "O que deveria fazer para tornar o povo respeitoso, leal e zeloso?" O Mestre disse: "Aproxima-te dele com dignidade e ele será respeitoso. Sê, tu mesmo, um bom filho e um pai gentil, e o povo será leal. Promove os bons e educa os incompetentes, e o povo será zeloso".
2.21 Alguém perguntou a Confúcio: "Mestre, por que não estais atuando no governo?" O Mestre disse: "Nos Documentos está escrito: "Basta cultivares a piedade filial e seres gentil com teus irmãos, e estarás contribuindo para a política". Esta também é uma forma de ação política; não é necessário atuar no governo".
2.22 O Mestre disse: "Com um homem que não fosse confiável, eu não saberia o que fazer. Como poderias puxar uma carroça sem uma canga ou uma carruagem sem as varas?"
2.23 Zizhang perguntou: "Podemos prever o futuro daqui a dez gerações?" O Mestre disse: "Yin adotou o ritual de Xia: podemos saber o que desapareceu e o que foi adicionado. Zhou adotou o ritual de Yin: podemos saber o que desapareceu e o que foi adicionado. Se Zhou tiver sucessores, poderemos saber como eles serão, mesmo daqui a centenas de gerações".
2.24 O Mestre disse: "Adorar deuses que não são os nossos é bajulação. Não agir quando a justiça exige é covardia".
6.1 O Mestre disse: "Ran Yong tem dentro de si as qualidades essenciais de um príncipe".
6.2 Ran Yong perguntou sobre Zisang Bosi. O Mestre disse: "Seus modos condescendentes são bastante corretos". Ran Yong disse: "Ser exigente consigo mesmo mas condescendente com o povo é aceitável. Ser condescendente consigo mesmo e condescendente com o povo seria frouxidão demais. Estou certo?" O Mestre disse: "Estás certo".
6.3 O duque Ai perguntou: "Qual dos discípulos tem amor pela aprendizagem?" Confúcio respondeu: "Havia Yan Hui que amava aprender; ele nunca descarregava suas frustrações sobre os outros; nunca cometia o mesmo erro duas vezes. Infelizmente, o tempo de vida que lhe coube foi curto: ele está morto. Agora, de todos os que conheço, não há nenhum com tanto amor pela aprendizagem".
6.4 Gongxi Chi foi enviado em missão a Qi. O mestre Ran Qiu requisitou uma bonificação em grãos para a mãe de Gongxi. O Mestre disse: "Dá-lhe um pote cheio". Ran Qiu pediu mais. O Mestre disse: "Dá-lhe uma medida". O mestre Ran Qiu deu-lhe cem vezes mais. O Mestre disse: "Gongxi Chi está viajando para Qi com magníficos cavalos e peles finas. Sempre ouvi dizer que um cavalheiro socorre os necessitados e não torna os ricos ainda mais ricos".
6.5 Yuan Xian tornou-se o camareiro de Confúcio e ofereceram-lhe uma bonificação de novecentas medidas de grãos, mas ele declinou. O Mestre disse: "Não faças isso! Podes dá-lo ao povo de teu vilarejo".
6.6 O Mestre disse a respeito de Ran Yong: "Alguns poderiam hesitar ao escolher para o sacrifício a cria de um boi carreiro; contudo, se um jovem touro tem bons chifres e o couro marrom avermelhado, os espíritos das Montanhas e dos Rios iriam rejeitá-lo?"
6.7 O Mestre disse: "Ah! Yan Hui poderia dedicar sua mente à bondade durante três meses sem interrupção, ao passo que os outros só o conseguem vez por outra".
6.8 O senhor Ji Kang perguntou: "Zilu poderia ser feito ministro?" O Mestre disse: "Zilu é resoluto; por que não o fazer ministro?"
O outro perguntou novamente: "Zigong poderia ser feito ministro?" - "Zigong é sagaz; por que não o fazer ministro?"
O outro perguntou ainda: "Ran Qiu poderia ser feito ministro?" - "Ran Qiu é talentoso; por que não o fazer ministro?"
6.9 O chefe da família Ji convidou Min Ziqian para gerir sua propriedade em Bi. Min Ziqian respondeu ao mensageiro: "Transmite gentilmente minhas recusas. Contudo, se uma nova oferta fosse feita, eu teria de me retirar para a outra margem do rio Wen".
6.10 Bonju estava doente. O Mestre foi pedir notícias dele. Segurando a mão de Bonju através da janela, ele disse: "Perdemo-lo. É o destino, ai de mim! Que um homem desses tivesse de ter uma doença dessas, que um homem desses tivesse de ter uma doença dessas!"
6.11 O Mestre disse: "Que pessoa admirável era Yan Hui! Um punhado de arroz para comer, uma cuia de água para beber, uma choupana para se abrigar; ninguém suportaria tanta miséria, mas a alegria de Yan Hui não se alterava. Que pessoa admirável era Yan Hui!"
6.12 Ran Qiu disse: "Não é que eu não goste do caminho do Mestre, mas não tenho a força para segui-lo". O Mestre disse: "Quem não tem a força pode sempre desistir no meio do caminho. Mas tu desistes antes de começar".
6.13 O Mestre disse a Zixia: "Sê um homem culto nobre, não um pedante vulgar".
6.14 Ziyou era governador de Wucheng. O Mestre disse: "Tens lá o tipo de gente adequada?" - "Há um certo Tantai Mieming: ele não faz uso de expedientes; nunca veio à minha casa, exceto para assuntos oficiais".
6.15 O Mestre disse: "Meng Zhifan não era um fanfarrão. Na estrada, ele ficava atrás para cobrir a retaguarda. Era apenas ao atingir a porta da cidade que ele esporeava seu cavalo e dizia: "Não foi a coragem que me manteve na traseira, mas a lentidão de meu cavalo".
6.16 O Mestre disse: "Para sobreviver numa época como a nossa, não basta ter a beleza do príncipe Zhao de Song. Necessita-se também da língua ágil do Sacerdote Tuo".
6.17 O Mestre disse: "Quem sairia de uma casa sem usar a porta? Por que as pessoas insistem em andar fora do Caminho?"
6.18 O Mestre disse: "Quando a natureza prevalece sobre a cultura, obténs um selvagem; quando a cultura prevalece sobre a natureza, obténs um pedante. Quando natureza e cultura estão em equilíbrio, obténs um cavalheiro".
6.19 O Mestre disse: "Um homem sobrevive graças à sua integridade. Se ele sobrevive sem isso, é pura sorte".
6.20 O Mestre disse: Conhecer alguma coisa não é tão bom quanto amá-la; amar alguma coisa não é tão bom quanto regozijar-se nela".
6.21 O Mestre disse: "Podes explicar coisas superiores a pessoas médias; não podes explicar coisas superiores a pessoas inferiores".
6.22 Fan Chi perguntou sobre sabedoria. O Mestre disse: "Garante os direitos do povo; respeita espíritos e deuses, mas mantendo-os a distância - isso, na verdade, é sabedoria".
Fan Chi perguntou sobre bondade. O Mestre disse: "As tentativas de um homem bom geram frutos - isso, na verdade, é bondade".
6.23 O Mestre disse: "Os sábios encontram alegria na água, os bons encontram alegria nas montanhas. Os sábios são ativos, os bons são tranqüilos. Os sábios são alegres, os bons vivem por muitos anos".
6.24 O Mestre disse: "Com uma reforma, o país de Qi poderia atingir o nível de Lu; com uma reforma, Lu poderia atingir o Caminho".
6.25 O Mestre disse: "Um vaso quadrado que não é quadrado - vaso quadrado, deveras!"
6.26 Zai Yu perguntou: "Se disséssemos a um homem bom que a bondade encontra-se no fundo do poço, deveria ele pular para juntar-se a ela?" O Mestre disse: "Por que deveria? Um cavalheiro pode ser mal informado, não pode deixar-se seduzir: ele pode ser enganado, não pode deixar-se desencaminhar".
6.27 O Mestre disse: "Um cavalheiro amplia sua aprendizagem por meio da literatura e se refreia pelo ritual; por isso, é improvável que cometa erros".
6.28 O Mestre foi ver Nanzi, a concubina do duque Ling. Zilu não gostou. O Mestre jurou: "Se fiz algo de errado, que o Céu me condene! Que o Céu me condene!"
6.29 O Mestre disse: "O poder moral do Caminho do Meio é supremo, e contudo já há muito tempo ele não é encontrado comumente entre o povo".
6.30 Zigong disse: "O que diríeis de um homem que cumula o povo de bênçãos e que poderia salvar a multidão? Poderia ele ser considerado bom?" O Mestre disse: "O que tem isso a ver com bondade? Ele seria um santo! Até mesmo Yao e Shun revelar-se-iam deficientes a esse respeito. Quanto ao homem bom: o que deseja alcançar para si ele ajuda os outros a alcançar; o que deseja obter para si ele possibilita que os outros obtenham - a habilidade de simplesmente tomar as próprias aspirações como guia é a receita da bondade".
6.30 Zigong disse: "O que diríeis de um homem que cumula o povo de bênçãos e que poderia salvar a multidão? Poderia ele ser considerado bom?" O Mestre disse: "O que tem isso a ver com bondade? Ele seria um santo! Até mesmo Yao e Shun revelar-se-iam deficientes a esse respeito. Quanto ao homem bom: o que deseja alcançar para si ele ajuda os outros a alcançar; o que deseja obter para si ele possibilita que os outros obtenham - a habilidade de simplesmente tomar as próprias aspirações como guia é a receita da bondade".
TEXTO 2: Laozi e o Daodejing, ou Tratado da Virtude e do Caminho
LIVRO 1: OS PRINCÍPIOS DE TAO
Itens 1 a 18
I. O PERFEITO TAO
O Tao de quem se pode falar
Não é o Tao Absoluto.
Os nomes que podem ser dados
não são os verdadeiros nomes.
O nome é a origem do Céu e da Terra.
O Nome é a Mãe de todas as Coisas.
Portanto:
Há quem se dilacere constantemente de paixão
Com o intuito de surpreender o Segredo da Vida
E quem constantemente encara a vida com ânsia
afim de ver seus resultados se manifestarem.
Mas ambos (o Segredo e suas manifestações)
no âmago são uma e a mesma coisa,
a qual se deu os nomes mais diversos,
conforme cada qual se manifesta.
Ambos podem ser chamados o Cósmico Mistério (1):
a partir do simples Mistério para o Mistério mais Profundo.
Eis o portão do segredo (2) de toda a vida.
II. A ORIGEM DAS AFINIDADES OPOSTAS
Quando todos os povos da Terra descobrem a beleza da beleza,
entre eles surge também a noção da fealdade.
Quando todos os povos da Terra descortinam a bondade do bem,
entre eles também desponta o reconhecimento do mal.
Portanto:
o ser e o não ser interdependem no seu desenvolvimento;
o difícil e o fácil interdependem em sua estrutura;
o longo e o breve interdependem no seu contraste;
o alto e o baixo interdependem na sua posição;
o som e o silêncio interdependem na formação da harmonia;
frente e costas interdependem numa só companhia.
Portanto, o Homem Prudente:
dirige negócios sem operar;
prega a doutrina sem palavras;
e as coisas todas tomam impulso mas ele não lhes vira as costas;
ele as verifica sem se apossar delas;
e age sem apropriação;
e atinge seus fins sem reivindicar credenciais
isto porque ele não clama por créditos
e por isso o crédito dele nunca se afasta.
III. AÇÃO SEM AGITAÇÃO
Não exaltes o mínimo (3) legislador,
pois só assim o povo não conspirará nem se amotinará;
não louves preciosidades raras,
pois assim somente o povo não as desejará roubar;
afasta da visão humana as coisas apetecíveis,
pois somente assim o coração do povo não será perturbado.
Portanto, o Sábio para governar;
mantém esvaziados de orgulho os corações (4);
mas cheios os estômagos,
desencorajando suas ambições,
mas revigorando suas disposições;
somente assim o povo é purificado em seus pensamentos e desejos.
E os astuciosos não terão a presunção de interferir (5).
Pela atividade sem agitação
Podem todos viver em paz.
IV. O CARÁTER DE TAO
Tao é profundamente penetrante (6),
e a sua utilidade inexaurível!
Imensurável!
Como a fonte mãe de todas as coisas.
Suas agudas arestas arredondadas em torno,
seus laços desatados,
sua luz difundida,
seu tumulto sufocado,
não obstante, como o claro cristal da água imóvel parece permanecer.
Seu Filho quem é não sei,
uma imagem do que existiu antes de Deus.
V. A NATUREZA
A Natureza é rude.
Ela trata a criação como cães de palha de sacrifício.
E rude é o Legislador:
Que trata o povo como cães de palha de sacrifício (7).
Como se parece com um fole o universo!
Vazio ele dá um alento que nunca esmorece;
e quanto mais acionado mais ele revivifica a chama.
Por inúmeras palavras também o espírito é exaurido.
Mas ainda assim o âmago do coração se mantém fiel (8).
VI. A ALMA DO VALE
A Alma do Vale (9) nunca morre.
Ela é chamada a Fêmea Mística (10).
E a janela dessa Fêmea Mística
é a rota do Céu e da Terra.
Continuamente, permanentemente,
ela parece sobreviver.
Puxa-a para cima.
E ela te beneficiará com facilidade (11).
VII. VIVER PARA OS OUTROS
O Universo é eterno.
E eterna sua razão de ser.
É que ele não viva só para Si mesmo (12).
Por isso pode durar tão infinitamente.
E por isso é que o Sábio se coloca em último lugar
apesar de ser o primeiro em hierarquia,
e encara seu corpo como um acidente,
embora seu corpo seja por esse meio preservado.
É que ele também não vive só para Si mesmo
E não será por isso que o seu Ego alcança a perfeição?
VIII. A ÁGUA
O melhor dos homens é como a água,
que beneficia todas as coisas
porém não compete com elas.
Ela mora nos mais humildes lugares, desdenhados por todos
lá onde mais próxima fica de Tao.
Para sua morada o Sábio também escolhe a terra obscura;
mas em seu coração ele ama tudo o que é profundo;
em suas relações com outros ele ama a bondade;
em suas palavras, ama a sinceridade;
no seu governo ama a paz;
em seus negócios ama a habilidade;
em suas atividades ama escolher a mais reta diretriz.
E é porque não entra em atrito com ninguém
que ele é irrepreensível
IX. O PERIGO DA ARROGÂNCIA NO SUCESSO
Curva-te (13) diante de um presumido,
e verás como terias desejado deter-te a tempo.
Tempera a lâmina de uma espada ao ponto mais afiado,
e seu gume não durará muito.
Quando o ouro e o jade encherem o teu vestíbulo
sentirás não ter meios de pô-los em segurança.
Quem se orgulha com a saúde e as honrarias
está semeando os germens de sua própria derrocada.
Retira-te logo que tua tarefa estiver cumprida.
Tal é o caminho da Eternidade (14).
X. ABRAÇANDO O ABSOLUTO
Ao abraçares o Absoluto com toda a tua alma,
poderás por acaso abandonar Tao?
Ao refreares tua força vital para executar uma cortesia
poderás te assemelhares a algum recém-nascido? (16)
Ao clareares e purificares tua visão Mística,
poderás competir com a perfeição?
Ao amares um povo e governares um reino,
Poderás dar regras sem interferir?
Ao abrires ou fechares os Cadeados do Céu,
poderás representar o papel da mulher? (17)
Ao compreenderes toda a sabedoria,
Poderás renunciar à inteligência? (18)
Dar nascimento, nutrir,
fazer vir à luz sem se apossar,
interferir sem apropriação,
tornar-se chefe dos homens sem levá-los ao servilismo -
Eis a Suprema Virtude.
XI. O MÉRITO DA IMPERSONALIDADE
Trinta raios formam o cubo;
Da renúncia à sua personalidade
é feito o valor da roda.
Modela no barro um vaso
e da forma impessoal de sua cavidade
e da impersonalidade dos espaços vazios
Elimina as portas e janelas da parede
e da impersonalidade dos espaços vazios
é que surge o mérito da casa.
É através da existência das coisas, portanto, que nós tiramos proveito.
E pela sua insignificância que ficamos servidos.
XII. OS SENTIDOS
As cinco cores cegam os olhos do homem;
as cinco notas de música ensurdecem seus ouvidos;
os cinco sabores entorpecem o seu paladar.
Corridas de cavalos, caçadas e conquistas femininas enlouquecem os homens.
E raros, inestimáveis bens, mantêm seus donos despertos de noite (19).
Assim sendo, o Sábio;
providencia as necessidades do Super- Ego e não as dos olhos (20).
E por essa razão rejeita um e aceita o outro.
XIII. LOUVOR E CENSURA
"Honrarias e opróbrios só servem para espalhar terror.
Tudo o que valorizamos ou tememos está dentro de nós mesmos".
Eis o que isto significa:
"Podem honrarias e opróbrios perturbar alguém?"
É que os escolhidos pelos favores do alto
perturbam-se quando os recebem
e perturbam-se também quando os perdem".
Eis a significação disto:
"Por que tudo o que valorizamos e tememos é como se estivesse dentro de nós mesmos?"
Sofremos temores porque temos um corpo (22)
Se não encarássemos isso corpo a corpo
que teríamos a temer?
Portanto, aquele que valoriza o mundo como o seu próprio ego
é que deve ser encarregado de o governar.
E o que ama o mundo como o seu próprio ser,
ao mundo é que compete zelar por ele.
XIV. ORIGENS PRÉ-HISTÓRICAS
O que viu mas não foi visto -
eis como se define o Invisível (vi).
O que ouviu mas não foi ouvido -
eis como se define o Inaudível (hsi).
O que tocou mas não foi tocado
eis como se define o Intangível (wei) (23).
Trindade esta que escapa às nossas interrogações
E daí a confusão e a transformação no Uno.
Não é por sua ascensão que existe a luz,
Nem por sua profundidade que existe a escuridão.
Incessantes e contínuas
nenhuma pode ser definida,
e acabam revertendo para o reino do nada.
Eis porque são denominadas a Forma do Amorfo,
a Imagem do Nada.
E porque esta é chamada também o Inevitável:
tenta encontrá-la e não verás sua face;
segue-a e não verás suas costas.
Aquele que sustenta firme a velhice de Tao
na intenção de dirigir os interesses do Presente
torna-se capaz de penetrar os Primevos Começos
que representam a continuidade (24) de Tao.
XV. OS VELHOS MAGOS DE ANTANHO
Os velhos magos (25) de antanho tinham sua sutil sapiência nos abismos do entendimento,
tão profundos que não podiam ser entendidos.
E porque não podiam ser entendidos
hoje não é fácil descrevê-los:
cautelosos, como se cruzassem faixas de neblina,
tímidos, como se temessem perigos ao redor,
movendo-se cerimoniosamente como hóspedes,
apagando-se tal qual o gelo que começa a derreter-se,
intactos (26) como peças de madeira virgem (27),
claros tal uma várzea aberta
e livremente mistos (28) como a água enlameada.
Quem pode encontrar repouso nesse lamacento mundo?
Permanecendo imóvel é que ele se torna limpo.
E quem pode manter a serenidade por muito tempo?
Só pela atividade é que se participa da vida.
Quem for partidário de Tao
resguarde-se contra a presunção
Quem se resguarda contra a presunção (29)
está acima da nudez total e da renovação.
XVI. A SABEDORIA DAS LEIS ETERNAS
Procura atingir a suprema Humildade (30)
Sustenta firme a base da Quietude.
Miríades de coisas se formam e se erguem para a atividade
mas eu as assisti tombarem de costas em repouso.
Assim como a vegetação que cresce luxuriante
mas retorna às raízes do chão onde nasceu.
Regressar às próprias origens, eis o que é o Repouso.
É o que se chama retornar ao seu próprio Destino.
Quem regressa à sua finalidade encontra a Eterna Lei (31)
Conhecer a Lei Eterna é o Esclarecimento.
Desconhecer a Lei Eterna é expor-se ao fracasso
Aquele que conhece a Lei Eterna é tolerante:
sendo tolerante é imparcial;
sendo imparcial é nobre (32);
sendo nobre está de acordo com a Natureza (33);
estando de acordo com a Natureza está de acordo com Tao;
estando de acordo com Tao é eterno
e sua vida inteira está preservada de danos.
XVII. OS GOVERNANTES
Do melhor dos governantes
O povo mal sabe (34) que existe.
O Próximo ama e elogia.
O Próximo o teme.
E o Próximo o recrimina
Quando aqueles não regulamentam a fé do povo,
alguns acabam perdendo a fé neles,
e passam então a recorrer aos oráculos!
Porém, o melhor disto é após os deveres cumpridos e as tarefas terminadas,
o povo inteiro observar: "Fomos nós que realizamos tudo sozinhos".
XVIII. A DECADÊNCIA DE TAO
Quando Tao cai em decadência,
as doutrinas do "amor" e da "justiça" (35) começam a surgir.
Quando a sabedoria e a inteligência apareceram
uma grande hipocrisia seguiu-as em seu rastro.
Quando as seis afinidades não puderam mais viver em paz,
lá estavam (agradecei-lhes) os "bondosos pais" e os "filhos dedicados".
Quando um país rola no caos e na anarquia,
é que houve (agradecei-lhes) "ministros leais".
II – O Oriente na Idade Média.
2.1) Afirmação dos Estados Orientais
Na verdade, a base de divisão historiográfica entre idades antiga, média, moderna e contemporânea tem a ver mais com o Ocidente do que com o Oriente.
Imperador qin. Fonte: http://humanitieslab.stanford.edu/219/192
No caso da China, por exemplo, já informamos anteriormente que a unificação imperial ocorreu dentro do período ocidental conhecido como antiguidade, com o Imperador Qin. É com este imperador que começa a construção da grande muralha, por volta de 220 a .C., construção esta que duraria até o período do esplendor da dinastia Ming, por volta do século XVI d.C. Durante este período, várias agitações internas e externas abalaram a China, mas nunca lhe descaracterizando o Império. A referida muralha foi considerada na condição de símbolo nacional na década de 1980, pois ela representa a identidade de um império de muitos séculos.
Muralha da China.
Também durante cerca de quinhentos anos a partir de Qin, houve unidade nas áreas nucleares da China, mas haviam muitos reinos ligados à cultura chinesa que depois penetrariam essa unificação e foram considerados erroneamente pelos historiadores ocidentais como bárbaros – conceito aplicado ao não-cidadão romano. Portanto, há muito o que investigar sobre unidade e fragmentação na China, sem conceituações apriorísticas errôneas.
A família imperial japonesa irá se instalar no trono à partir do século VI d.C., e desde este período se mantém no trono. Contudo não foi uma existência pacífica, tendo conhecido em todo esse período da história japonesa a ascensão de administradores e guerreiros importantes no que se refere ao governo, respectivamente os Daimyo e os Shóguns.
O Império Gupta representa, até o século VI d. C., os mais altos níveis de cultura, política e administração na Índia. Com o fim do Império, a Índia passou a ser dominada por pequenos reinos, o que viria a favorecer futuras incursões de estrangeiros, apesar da unidade cultural.
2.2) O comércio oriental
O comércio oriental existe desde os tempos antigos.
Especificamente com o Ocidente, este comércio era feito tendo por intermédio os árabes, que levavam as cobiçadas especiarias até Constantinopla e, à partir daí, passava para as mãos dos italianos.
Como bem salientou Jacques Le Goff, este comércio via terrestre aprsentava para os europeus uma série de inconvenientes, como estar sujeito a tarifas alfandegárias em terras de Senhores Feudais e à ação dos salteadores, ficando a dívida em boa parte das vezes maior que o lucro. Buscava, então, o europeu intensamente por uma via alternativa para chegar ao Oriente sem os percalços oferecidos pela jornada e também sem o intermédio dos atravessadores árabes e italianos.
Sendo assim, a chegada de Vasco da Gama ao Oriente representa um importante marco para a história européia e ocidental. Sem dúvida alguma, também para a oriental, no sentido que estes povos passaram a comercializar em maior quantidade com o Ocidente.
2.3) Expansão religiosa: budismo, hinduísmo e islamismo
É à partir da segunda dinastia Han que o budismo se difunde na China, ou seja, por volta do início da era cristã. Os primeiros missionários budistas chegam pelas rotas comerciais ao longo do século I d.C.
Taj Mahal. Fonte: http://terapeutavdm.blogspot.com/2009_07_29_archive.html
Palácio dos Ventos, séc. XIII.
De início, o budismo era visto como uma religião de estrangeiros, mas posteriormente acabou por afirmar-se entre as classes superiores e atingiu um número considerável de seguidores. Budismo, taoísmo e confucionismo influenciaram-se muito na China, tendo uma convivência bastante respeitável.
Qin afirmava a sua conquista como conseqüência de ter se baseado nos poderes mágicos dos antepassados, e vários governantes da dinastia Qin acreditavam ter recebido um mandato do céu.
Os Han, que vieram depois dos Qin, não chegaram a invocar a genealogia dos antepassados poderosos, mas afirmavam ter se baseado nos poderes mágicos do céu e da Terra.
Templo Budista em Lhasa, Tibet.
Como já vimos na Unidade I, o budismo se difundiu em seu país de origem – a Índia – sob o reinado de Asoka, em III a.C. Anteriormente, predominava na Índia o hinduísmo. À partir da era cristã haverá um convívio pacífico entre as referidas religiões, e inclusive alguns conceitos em comum surgirão. Atualmente, pode-se afirmar que a cultura religiosa indiana é marcada por um intenso grau de sincretismo e, apesar de conflitos religiosos, sobretudo no período da independência, pode-se também falar de um convívio pacífico entre as religiões.
Templo budista no Himalaia.
O budismo foi difundido no Japão à partir da China e da Coréia, especificamente no século VI d.C. Apesar de ter sido declarado pelo príncipe Shotoku uma religião de Estado, só ganharia popularidade posteriormente. A figura do Príncipe Shotoku também está relacionada, na história do japão, à arte das Ikebanas e à importância das flores. Na verdade, podemos perceber que não era da intenção deste príncipe uma expansão pelas armas.
No que diz respeito à expansão islâmica, pode-se afirmar que ocorreu de forma intensa após a morte do profeta Mohammad, tendo por focos principais o norte da África, a península ibérica, o Oriente Médio e a Ásia central e meridional.
Buda Kamakura, em Kanagawa, Japão.
TEXTO COMPLEMENTAR
A Expansão do Budismo na Ásia
Originalmente publicado como parte de
Berzin, Alexander. Buddhism and Its Impact onAsia . Asian Monographs, no. 8.
Cairo: Universidade do Cairo, Centro de Estudos Asiáticos, Junho de 1996.
Berzin, Alexander. Buddhism and Its Impact on
Cairo: Universidade do Cairo, Centro de Estudos Asiáticos, Junho de 1996.
Breve História
Apesar de o budismo nunca ter desenvolvido um movimento missionário, os ensinamentos de Buda contudo expandiram-se extensamente no sub-continente indiano e dali para toda a Ásia. Em cada nova cultura que alcançava, os métodos e estilos budistas íam sendo modificados para se enquadrarem na mentalidade local, sem comprometer os pontos essenciais da sabedoria e compaixão. O budismo entretanto nunca desenvolveu toda uma hierarquia de autoridade religiosa com um líder supremo. Cada país por onde se espandiu desenvolveu a sua própria maneira, estrutura religiosa e líder espiritual. A mais bem conhecida e internacionalmente respeitada destas autoridades é Sua Santidade, o Dalai Lama do Tibete.
Existem duas divisões principais do budismo: Hinayana, ou Veículo Modesto, que enfatiza a liberação pessoal, e Mahayana, ou Veículo Vasto, que enfatiza o trabalho para se tornar um Buda completamente iluminado, por forma a estar-se mais apto a ajudar os outros. Cada uma tem muitas sub-divisões. Atualmente, no entanto, sobrevivem três formas principais: uma Hinayana conhecida no sudeste asiático como Theravada; e duas Mahayana que são as tradições chinesa e tibetana.
A tradição Theravada expandiu-se da Índia para o Sri Lanka e Birmânia no século III a.C. e dali para Yunnan no sudoeste da China, Tailândia, Laos, Camboja, sul do Vietnam e Indonésia. Pequenos grupos de mercadores indianos praticando o budismo desde logo foram encontrados na costa da península arábica e até em Alexandria, no Egito. Outras formas do Hinayana se expandiram naquela época para o que hoje são o Paquistão, Caxemira, Afeganistão, a costa e o leste do Irã, Usbequistão, Turcomenistão e o Tajiquistão. Estes foram os estados antigos de Gandhara, Bactria, Parthia e Sogdia. A partir desta base na Ásia Central, elas de novo se expandiram no século II d.C. para o leste do Turquistão (Xinjiang) e interior da China, e nos finais do século VII para o Quirguistão e Cazaquistão. Essas formas Hinayana foram mais tarde combinadas com aspectos Mahayana que também vieram da Índia, até que por fim Mahayana se tornou a forma dominante de budismo na maior parte da Ásia Central.
Mais tarde, a forma Mahayana chinesa alcançou a Coreia, o Japão e o norte do Vietnam. Outra onda inicial do Mahayana, misturada com formas shivaitas de hinduísmo, começou a expandir-se por volta do século V da Índia para o Nepal, Indonésia, Malásia e parte do sudeste asiático. A tradição Mahayana tibetana, que iniciada no século VII herdou o desenvolvimento histórico completo do budismo indiano, expandiu-se por todas as regiões dos himalaias, para a Mongólia, o leste do Turquistão, o Quirguistão, Cazaquistão, norte da China Interior, Manchúria, Sibéria e a região mongol de Calmíquia, próxima do Mar Cáspio na Rússia europeia.
A Forma como o Budismo se Expandiu
A expansão do budismo através da maior parte da Ásia foi pacífica e ocorreu de diversas maneiras. Buda Shakyamuni abriu o precedente. Sendo antes do mais um professor, ele viajou para os reinos vizinhos para compartilhar a sua sageza com aqueles que estivessem receptivos e interessados. De igual modo, ele instruiu os seus monges para viajarem pelo mundo expondo os seus ensinamentos. Ele não pedia que os outros difamassem ou desistissem das suas próprias religiões e se convertessem a uma nova, pois não estava visando estabelecer a sua própria religião. Estava simplesmente tentando ajudar os outros a superarem a infelicidade e o sofrimento que eles estavam criando para si mesmos devido à sua falta de compreensão. Posteriores gerações de seguidores foram inspiradas pelo exemplo de Buda e compartilharam com os outros os seus métodos que acharam úteis para suas vidas. Foi assim que o atualmente denominado “budismo” se expandiu por todo o lugar.
Em certas ocasiões, o processo evoluiu naturalmente. Por exemplo, quando mercadores budistas visitavam e se estabeleciam em outras terras, alguns membros da população local desenvolviam naturalmente um interesse pelas crenças desses estrangeiros, tal como aconteceu com a introdução do Islão na Indonésia e Malásia. Tal processo ocorreu com o budismo nos territórios de oásis ao longo da Rota da Seda na Ásia Central, durante os dois séculos anteriores e posteriores a Cristo. À medida em que os governantes e seus povos iam aprendendo mais sobre essa religião indiana, iam convidando monges das regiões nativas dos mercantes como conselheiros e professores e dessa maneira adotaram por fim a fé budista. Outro método natural verificou-se através da lenta assimilação cultural por um povo conquistador, tal como os gregos que assimilaram a cultura da sociedade budista de Gandhara, no atual Paquistão Central, durante os séculos após o II a.C.
Porém, a expansão devia-se frequentemente à influência de um próprio monarca poderoso que tinha adotado e apoiado o budismo. Por exemplo, em meados do século III a.C., o budismo expandiu-se através do norte da Índia como resultado da aceitação pessoal do rei Ashoka. Esse grande construtor de impérios não forçou seus súditos a adotarem a fé budista. Mas, ao postar decretos entalhados em pilares de ferro através do seu reino, exortando seu povo a levar uma vida ética e seguindo ele próprio esses princípios, inspirou outros a adotarem os ensinamentos de Buda.
O rei Ashoka também “converteu” ativamente fora do seu reino, enviando missões para terras distantes. Em algumas ocasiões, ele agiu sob o convite de soberanos estrangeiros, tal como o rei Tishya do Sri Lanka. Em outras ocasiões, por iniciativa própria, ele mandou monges como seus enviados. Esses monges visitantes, contudo, não usavam de força para pressionar os outros a se converterem, mas apenas tornavam disponíveis os ensinamentos de Buda, permitindo que as pessoas escolhessem por si próprias. Isso é evidenciado pelo fato de que nesses lugares, como no sul da Índia ou no sul da Birmânia, em pouco tempo o budismo criou raízes, enquanto que noutros lugares, tal como nos estados gregos na Ásia Ocidental, não há registro de qualquer impacto imediato.
Outros reis religiosos, como o governante mongol do século XVI, Altan Khan, convidaram professores budistas para seus reinos e declararam o budismo como doutrina oficial do país, de modo a contribuir para a a unificação dos seus povos e consolidação dos seus domínios. No processo, eles podem ter proibido certas práticas de religiões indígenas não-budistas e até perseguido aqueles que as seguiam, mas essas ações cruéis foram motivadas principalmente por política. Esses governantes ambiciosos nunca forçavam seus súditos a adotar formas budistas de crença ou veneração. Isso não faz parte da crença religiosa.
Se Buda Shakyamuni aconselhou que não seguissem os seus ensinamentos cegamente, mas que os examinassem por si próprias com cuidado antes de os aceitar, muito menos deveriam aceitar os ensinamentos de Buda por coerção de missionários zelosos ou decreto real. Assim por exemplo quando Toyin Neiji, no início do século XVI, tentou aliciar nómadas do leste da Mongólia a seguirem o budismo oferecendo-lhes rebanhos por cada verso que memorizassem, as pessoas reclamaram às autoridades superiores. No final, esse professor autoritário foi punido e exilado.
Breve História do Budismo na India Antes das Invasões do Século XIII
Alexander Berzin
Janeiro 2002, revisado em Abril de 2007
Janeiro 2002, revisado em Abril de 2007
Introdução
As expressões Hinayana (Theg-dman) e Mahayana (Theg-chen), que significam [respectivamente] “pequeno” ou modesto veículo e “grande” ou espaçoso veículo, apareceram primeiro em Os Sutras sobre a Consciência Discernente de Vasto Alcance (Sher-phyin-gyi mdo, Sânsc. Prajnaparamita Sutras; Sutras da Perfeição da Sabedoria) como uma forma de expressar a superioridade do Mahayana. Historicamente, havia dezoito escolas pré-datando o Mahayana, cada uma com sua versão ligeiramente diferente das regras de disciplina monástica (‘dul-ba, Sânsc. vinaya). Embora haja quem tenha sugerido expressões alternativas para referirem as dezoito [escolas] como um todo, iremos usar o termo geralmente mais conhecido para elas, Hinayana, mas sem qualquer intenção de conotação pejorativa.
Theravada (gNas-brtan smra-ba, Sânsc. Sthaviravada) é a única das dezoito escolas do Hinayana que atualmente existe. Floresce no Sri Lanka e no Sudeste Asiático. Quando os textos Mahayana, tibetanos e indianos, expõem as visões filosóficas das Escolas Sautrantika (mDo-sde-pa) e Vaibhashika (Bye-brag smra-ba), estas duas escolas Hinayana são divisões da Sarvastivada (Thams-cad yod-par smra-ba), outra das dezoito. As regras de disciplina monástica tibetanas vêm da Escola Mulasarvastivada (gZhi thams-cad yod-par smra-ba), outra divisão da Sarvastivada. Assim, não devemos confundir a apresentação tibetana do Hinayana com [a da] Theravada.
As tradições budistas do Leste Asiático seguem as regras de disciplina monástica da escola Dharmagupta (Chos-srung sde), outra das dezoito.
As tradições budistas do Leste Asiático seguem as regras de disciplina monástica da escola Dharmagupta (Chos-srung sde), outra das dezoito.
Buda Shakyamuni
O príncipe Sidarta, que se tornou no Buda Shakyamuni, viveu de 566 a 486 a .C. na parte central do norte da India. Após ter alcançado a iluminação com a idade de trinta e cinco anos, vagueou como mendicante, ensinando aos outros. Uma comunidade de buscadores espirituais celibatários depressa se reuniu em seu redor acompanhando-o enquanto ele viajava. Por fim, quando surgiu a necessidade, Buda estabeleceu regras de disciplina monástica para esta comunidade. Os “monges” reuniam-se quatro vezes por mês para recitar essas regras e purificar todas as infrações que pudessem ter ocorrido.
Cerca de vinte anos depois da sua iluminação, Buda iniciou o costume dos monges permanecerem no mesmo local, todos os anos, durante a estação das chuvas, para um retiro de três meses. A construção de mosteiros budistas desenvolveu-se a partir deste costume. Poucos anos antes de falecer, Buda introduziu também uma tradição de monjas.
Cerca de vinte anos depois da sua iluminação, Buda iniciou o costume dos monges permanecerem no mesmo local, todos os anos, durante a estação das chuvas, para um retiro de três meses. A construção de mosteiros budistas desenvolveu-se a partir deste costume. Poucos anos antes de falecer, Buda introduziu também uma tradição de monjas.
O Primeiro Concílio Budista
Buda ensinou no dialecto Prakrit (Tha-mal-pa) de Magadha (Yul Ma-ga-dha), mas nada foi escrito no decurso da sua vida. De fato, os ensinamentos de Buda só foram escritos pela primeira vez no ínicio do século I a.C., e eram da Escola Theravada. Foram escritos no Sri Lanka, na língua Pali. Nos séculos anteriores, os monges preservaram os ensinamentos de Buda memorizando-os e recitando-os periodicamente.
O costume de recitar de memória os ensinamentos de Buda começou uns meses depois de Buda ter falecido. Isto ocorreu no Primeiro Concílio Budista, em Rajagrha (rGyal-po’i khab, atual Rajgir), com a presença de quinhentos discípulos. Relatos tradicionais registam que todos os participantes eram arhats (dgra-bcom-pa), seres liberados.
De acordo com a versão Vaibhashika, três dos arhats recitaram os ensinamentos de memória. Se todos os outros membros da assembleia concordassem que o que estes arhats recitaram era exatamente o que o Buda tinha realmente dito, isto confirmaria a exatidão dos ensinamentos.
O costume de recitar de memória os ensinamentos de Buda começou uns meses depois de Buda ter falecido. Isto ocorreu no Primeiro Concílio Budista, em Rajagrha (rGyal-po’i khab, atual Rajgir), com a presença de quinhentos discípulos. Relatos tradicionais registam que todos os participantes eram arhats (dgra-bcom-pa), seres liberados.
De acordo com a versão Vaibhashika, três dos arhats recitaram os ensinamentos de memória. Se todos os outros membros da assembleia concordassem que o que estes arhats recitaram era exatamente o que o Buda tinha realmente dito, isto confirmaria a exatidão dos ensinamentos.
- Ananda (Kun-dga' - bo) recitou os sutras (mdo) - os discursos acerca dos vários temas da prática.
- Upali (Nye-bar ‘khor) recitou o vinaya- as regras de disciplina monástica.
- Mahakashyapa (‘Od-bsrung chen-po) recitou o abhidharma (chos mngon-pa), acerca dos tópicos especiais de conhecimento.
Estas três divisões dos ensinamentos de Buda formaram As Três Coleções tipo-Cestos (sDe-snod gsum, Sânsc. Tripitaka, Três Cestos).
- O Cesto do Vinayacontinha os ensinamentos sobre a suprema auto-disciplina ética;
- O Cesto dos Sutra, sobre a suprema concentração absorta;
- O Cesto do Abhidharma, os ensinamentos sobre a suprema consciência discernente ou a suprema “sabedoria”.
O relato Vaibhashika inclui a questão de que nem todos os ensinamentos de Buda sobre o abhidharma foram recitados neste Primeiro Concílio. Alguns foram transmitidos oralmente fora da jurisdição do Concílio tendo sido adicionados posteriormente.
De acordo com a versão Sautrantika, os ensinamentos do abhidharma recitados no Concílio não eram, de modo nenhum, as palavras de Buda. Os sete textos do abhidharma incluídos neste cesto foram na verdade compostos por sete dos arhats.
De acordo com a versão Sautrantika, os ensinamentos do abhidharma recitados no Concílio não eram, de modo nenhum, as palavras de Buda. Os sete textos do abhidharma incluídos neste cesto foram na verdade compostos por sete dos arhats.
O Segundo Concílio Budista e a Fundação da Escola Mahasanghika
Em 386 ou 376 a .C. ocorreu o Segundo Concílio Budista em Vaishali (Yangs-pa-can), com uma assembleia de setecentos monges. O propósito do Concílio era resolver dez questões acerca da disciplina monástica. A principal decisão acordada foi a de que não era permitido aos monges aceitarem ouro. Na prática, isto significa que os monges não têm permissão de lidar com dinheiro. O Concílio recitou então O Cesto de Vinayapara reconfirmar a sua pureza.
De acordo com o relato Theravada, a primeira divisão da comunidade monástica ocorreu neste Concílio. Os monges ofendidos sairam para formar a Escola Mahasanghika (dGe-‘dun phal-chen-po), enquanto que os idosos que permaneceram tornaram-se conhecidos como a Escola Theravada. “Theravada” significa, em Pali, “seguidores das palavras dos anciãos”. “Mahasanghika” significa “a comunidade da maioria”.
De acordo com outros relatos, a verdadeira divisão aconteceu mais tarde, em349 a .C. O ponto de disputa não era sobre questões de disciplina monástica, mas antes sobre visões filosóficas. A divergência foi sobre a questão dos arhats – seres liberados – serem ou não limitados.
De acordo com o relato Theravada, a primeira divisão da comunidade monástica ocorreu neste Concílio. Os monges ofendidos sairam para formar a Escola Mahasanghika (dGe-‘dun phal-chen-po), enquanto que os idosos que permaneceram tornaram-se conhecidos como a Escola Theravada. “Theravada” significa, em Pali, “seguidores das palavras dos anciãos”. “Mahasanghika” significa “a comunidade da maioria”.
De acordo com outros relatos, a verdadeira divisão aconteceu mais tarde, em
- Os anciãos Theravada concordaram que os arhats são limitados no seu conhecimento. Por exemplo, ao viajarem, podiam não saber as direções e podiam receber informações dos outros sobre tais coisas. No entanto, sabiam tudo sobre matérias do Dharma. Os arhats podiam até ter dúvidas sobre as suas próprias realizações, embora não recaíssem. Contudo, insistiu Theravada que os arhats são completamente livres de emoções perturbadoras, tais como o desejo.
- O grupo Mahasanghika, ou o “grupo da maioria”, não concordou com a questão das emoções perturbadoras. Afirmou que os arhats podiam ainda ser seduzidos em sonhos e ter emissões noturnas, porque os arhats tinham ainda um traço de desejo sexual.Assim, Mahasanghika fez uma distinção clara entre um arhat e um Buda.
Os seguidores da escola Theravada tendiam para a parte ocidental do norte da India. Os seguidores da Mahasanghika tendiam para a parte oriental do norte da India e depois espalharam-se até Andhra, na parte oriental do sul da India. Foi lá, em Andhra, que mais tarde Mahayana emergiu. Os eruditos ocidentais vêem Mahasanghika como o precursor de Mahayana.
Em 322 a .C., Chandragupta Maurya fundou o Império Maurya, na região central do norte da India, que tinha sido conhecida como Magadha, a terra onde nasceu o budismo. O império cresceu rapidamente, alcançando sua maior extensão entre 268 e 232 a .C. sob o regime do Imperador Ashoka (Mya-ngan med-pa). Durante o seu tempo, o Império Maurya se estendia do atual Afeganistão Oriental e de Baluchistan a Assam, e cobria a maior parte do sul da India.
Durante o reinado do imperador Ashoka, em237 a .C., a Escola Sarvastivada também se separou da Theravada, devido a certas questões filosóficas. Segundo a Escola Theravada, o momento desta separação foi o Terceiro Concílio, conduzido sob patrocínio imperial na capital de Maurya, Pataliputra – atual Patna. No entanto, datam este concílio como tendo ocorrido em 257 a .C., vinte anos mais cedo do que o registro da separação segundo Sarvastivada. Isto porque, de acordo com Theravada, foi só depois deste concílio ter reafirmado a pureza da visão Theravada que o imperador Ashoka enviou no ano seguinte missões para introduzir o budismo nas novas regiões do seu império e mais além. Mediante estas missões, o budismo Theravada foi introduzido no atual Paquistão (Gandhara e Sindh), no atual sudeste do Afeganistão (Bactria), Gujarat, a parte ocidental do sul da India, Sri Lanka e Burma. Após a morte do imperador Ashoka, o seu filho Jaloka introduziu Sarvastivada na Caxemira. Daí, espalhou-se por fim ao atual Afeganistão.
Pondo de lado a data em que ocorreu o concílio, a sua principal tarefa era analisar os ensinamentos de Buda e refutar o que os ortodoxos anciãos Theravada consideravam como visões incorretas. Moggaliputta Tissa, o monge-líder do concílio, compilou estas refutações analíticas em Motivos de Controvérsia(Pali Kathavatthu), que se tornou o quinto dos sete textos do Cesto do AbhidhammaTheravada.
Outras tradições Hinayana não relatam este concílio do mesmo modo que Theravada. Em qualquer caso, um dos principais pontos filosóficos sobre o qual a separação ocorreu era a existência de fenómenos passados, presentes e futuros.
Durante o reinado do imperador Ashoka, em
Pondo de lado a data em que ocorreu o concílio, a sua principal tarefa era analisar os ensinamentos de Buda e refutar o que os ortodoxos anciãos Theravada consideravam como visões incorretas. Moggaliputta Tissa, o monge-líder do concílio, compilou estas refutações analíticas em Motivos de Controvérsia(Pali Kathavatthu), que se tornou o quinto dos sete textos do Cesto do AbhidhammaTheravada.
Outras tradições Hinayana não relatam este concílio do mesmo modo que Theravada. Em qualquer caso, um dos principais pontos filosóficos sobre o qual a separação ocorreu era a existência de fenómenos passados, presentes e futuros.
· Sarvastivada afirmava que tudo existe - as coisas que já não estão acontecendo, as coisas que estão acontecendo atualmente e as coisas que ainda não aconteceram. Isto porque são eternos os átomos de que as coisas são feitas; apenas mudam as formas que eles tomam. Assim, as formas que tomam os átomos podem se transformar de coisas que ainda não estão acontecendo em coisas que estão acontecendo agora e, depois, em coisas que já não estão acontecendo. Mas os átomos que constituem cada uma destas coisas são os mesmos eternos átomos .
· Não só Theravada, mas também Mahasanghika, afirmavam que só existem as coisas que estão acontecendo agora, e aquelas coisas que já não estão acontecendo mas que ainda não produziram os seus resultados. Estas últimas existem porque ainda podem executar uma função.
· Entretanto, Sarvastivada concordava com Mahasanghika que os arhats têm limitações quanto a traços de emoções perturbadoras.
Em 190 a .C., a Escola Dharmagupta também se separou da Theravada.
· Dharmagupta concordava com Theravada que os arhats não têm emoções perturbadoras.
· Contudo, tal como Mahasanghika, Dharmagupta tendia a elevar Buda. Afirmava que é mais importante fazer oferendas a Budas do que a monásticos, e em especial enfatizava as oferendas a estupas- monumentos contendo relíquias de Budas.
· Dharmagupta adicionou uma quarta coleção tipo-cesto, o Cesto de Dharani. “Dharanis” (gzungs), significando em sânscrito“poder de retenção” e “medidas vitais” na tradução tibetana, são fórmulas sânscritas devocionais que, quando cantadas, ajudam o praticante a reter as palavras e o significado do Dharma, por forma a conservar os fenómenos construtivos e a eliminar os destrutivos. Este desenvolvimento dos dharanisseguia em paralelo o espírito devocional da época, marcado pelo aparecimento do clássico hindu, Bhagavad Gita.
A Escola Dharmagupta estendeu-se ao atual Paquistão, Afeganistão, Irão, Ásia Central, e até à China. Os chineses adotaram a versão Dharmagupta quanto aos votos de monges e monjas. Com o decorrer dos séculos, esta versão de regras de disciplina monástica foi transmitida à Coreia, ao Japão e ao Vietname.
O Quarto Concílio Budista
As Escolas Theravada e Sarvastivada conduziram, cada uma delas, o seu próprio quarto concílio.
A Escola Theravada conduziu o seu quarto concílio em29 a .C., no Sri Lanka, sob o patrocínio do rei Vattagamani. Face aos vários grupos que se tinham afastado da Theravada devido a diferenças de interpretação das palavras de Buda, Maharakkhita e quinhentos anciãos da Theravada reuniram-se para recitar e escrever as palavras de Buda a fim de preservar a sua autenticidade. Esta foi a primeira vez que os ensinamentos de Buda passaram a escrito e, neste caso, foram transcritos na língua Pali. Esta versão das Três Coleções tipo-Cestos, Tipitaka, é geralmente conhecida como o Cânone Pali. As outras escolas Hinayana, entretanto, continuaram a transmitir os ensinamentos oralmente.
Dentro da Escola Sarvastivada, surgiram gradualmente várias diferenças de interpretação dos ensinamentos. A primeira a surgir foi o antecessor da Escola Vaibhashika. Depois, por volta do ano 50 d.C., desenvolveu-se a Sautrantika. Cada uma tinha as suas próprias asserções acerca de muitas questões sobre o abhidharma.
Entretanto, a situação política no norte da India, em Caxemira e no Afeganistão estava em vias de uma grande mudança, com a invasão dos Yuezhi (Wade-Giles: Yüeh-chih), da Ásia Central. Os Yuezhi eram um povo indo-europeu vivendo originalmente no Turquistão Oriental. Conquistando uma vasta área para oeste e depois para o sul, no fim do século II a.C., estabeleceram por fim a Dinastia Kushan, que durou até 226 d.C. No seu apogeu, o Império Kushan estendia-se desde o atual Tadjiquistão, Usbequistão, Afeganistão e Paquistão, através de Caxemira e do noroeste da India, até à parte central do norte da India e à India Central. Ligando a Rota da Seda com os portos de mar na foz do rio Indo, esta dinastia levou o budismo ao contacto com muitas influências estrangeiras. Também através deste contacto, o budismo chegou à China.
O mais famoso dos regentes de Kushan foi o rei Kanishka que, de acordo com algumas fontes, governou de78 a 102 d.C. e, segundo outras, de 127 a 147 d.C. Em qualquer caso, a Escola Sarvastivada conduziu o seu quarto concílio durante o seu reinado, na sua cidade-capital de Purushapura (atual Peshawar) ou em Srinagar, Caxemira. O concílio rejeitou o abhidharma Sautrantika e sistematizou o seu próprio abhidharma em O Grande Comentário (Sânsc. Mahavibhasha). O concílio também supervisionou a tradução de Prakrit para Sânscrito da versão Sarvastivada das Três Coleções tipo-Cestos, e a escrita destes textos em sânscrito.
Entre os séculos IV e V d.C., a Escola Mulasarvastivada afastou-se da predominante Sarvastivada Vaibhashika em Caxemira. No final do século VIII d.C., os tibetanos adotaram a sua versão das regras de disciplina monástica. Nos séculos posteriores, espalhou-se do Tibete para a Mongólia e para as regiões mongóis e algumas túrquicas da Rússia.
A Escola Theravada conduziu o seu quarto concílio em
Dentro da Escola Sarvastivada, surgiram gradualmente várias diferenças de interpretação dos ensinamentos. A primeira a surgir foi o antecessor da Escola Vaibhashika. Depois, por volta do ano 50 d.C., desenvolveu-se a Sautrantika. Cada uma tinha as suas próprias asserções acerca de muitas questões sobre o abhidharma.
Entretanto, a situação política no norte da India, em Caxemira e no Afeganistão estava em vias de uma grande mudança, com a invasão dos Yuezhi (Wade-Giles: Yüeh-chih), da Ásia Central. Os Yuezhi eram um povo indo-europeu vivendo originalmente no Turquistão Oriental. Conquistando uma vasta área para oeste e depois para o sul, no fim do século II a.C., estabeleceram por fim a Dinastia Kushan, que durou até 226 d.C. No seu apogeu, o Império Kushan estendia-se desde o atual Tadjiquistão, Usbequistão, Afeganistão e Paquistão, através de Caxemira e do noroeste da India, até à parte central do norte da India e à India Central. Ligando a Rota da Seda com os portos de mar na foz do rio Indo, esta dinastia levou o budismo ao contacto com muitas influências estrangeiras. Também através deste contacto, o budismo chegou à China.
O mais famoso dos regentes de Kushan foi o rei Kanishka que, de acordo com algumas fontes, governou de
Entre os séculos IV e V d.C., a Escola Mulasarvastivada afastou-se da predominante Sarvastivada Vaibhashika em Caxemira. No final do século VIII d.C., os tibetanos adotaram a sua versão das regras de disciplina monástica. Nos séculos posteriores, espalhou-se do Tibete para a Mongólia e para as regiões mongóis e algumas túrquicas da Rússia.
Ramos da Escola Mahasanghika
Entretanto, a Escola Mahasanghika, situada principalmente no sul da India Oriental, ramificou-se em cinco escolas. Todas concordavam que os arhats são limitados e que os Budas são supremos, e cada uma delas desenvolveu esta asserção abrindo caminho para o Mahayana. Acerca das três escolas principais:
4. A Escola Lokottaravada (‘Jig-rten ‘das-par smra-ba) postulava Buda como um ser transcendental, cujo corpo está para além dos perecíveis deste mundo. Este postulado formou a base da explanação Mahayana dos Três Corpuses (Três Corpos) de um Buda. A Escola Lokottaravada espalhou-se para o Afeganistão onde, entre os séculos III e V d.C., os seus seguidores construíram os colossais Budas de Bamiyan, refletindo a sua visão de Budas transcendentais.
5. A Escola Bahushrutiya (Mang-du thos-pa) postulava Buda como tendo dado ensinamentos tanto mundanos como além deste mundo. Isto conduziu à divisão Mahayana entre o Corpus de Emanações (sprul-sku, Sânsc. nirmanakaya) e o Corpus de Pleno Uso (longs-sku, Sânsc. sambhogakaya) de um Buda.
6. A Escola Chaitika saiu da Bahushrutiya e postulava que Buda já era iluminado antes de ter aparecido neste mundo e estava apenas demonstrando a sua iluminação a fim de mostrar aos outros o caminho. Este postulado também foi aceite mais tarde por Mahayana.
O Surgimento do Mahayana
Os sutras Mahayana apareceram pela primeira vez entre o século I a.C. e o século IV d.C., em Andhra, no sul da India Oriental, área em que Mahasanghika estava florescendo. Segundo as tradicionais narrativas budistas, estes sutras tinham sido ensinados por Buda, mas tinham sido transmitidos oralmente e mais em privado do que as obras Hinayana tinham sido. Alguns até tinham sido protegidos em reinos não-humanos.
Os sutras Mahayana mais importantes que abertamente apareceram naquela época foram:
- Durante os primeiros dois séculos, os Sutras sobre a Consciência Discernente de Vasto Alcance (Sânsc. Prajnaparamita Sutras) e o Sutra Instruindo sobre Vimalakirti (Dri-ma med-pa grags-par bstan-pa’i mdo, Sânsc. Vimalakirti-nirdesha Sutra). O primeiro diz respeito à vacuidade (vazio) de todos os fenómenos; enquanto que o último descreve o bodhisattva leigo.
- Por volta de 100 d.C., o Sutra da Glória da Bem-Aventurada TerraPura), (bDe-ba-can-gyi bkod-pa’i mdo, Sânsc. Sukhavati-vyuha Sutra), introduz Sukhavati, a Terra Pura de Amitabha, o Buda da Luz Infinita.
- Cerca de 200 d.C., o Sutra Lotus do Sagrado Dharma (Dam-pa’i chos padma dkar-po’i mdo, Sânsc. Saddharmapundarika Sutra), enfatiza a capacidade que todos têm de se tornarem Budas e, deste modo, de todos os veículos de ensinamentos de Buda se encaixarem como meios hábeis. A sua apresentação é muito devocional.
Dentro do Mahayana, as Escolas Madhyamaka (dBu-ma) e Chittamatra (Sems-tsam-pa) também apareceram primeiramente em Andhra, no sul da India.
- A Escola Madhyamaka, vinda de Nagarjuna, que viveu em Andhra entre 150 e 250 d.C., explica os Sutras Prajnaparamita. De acordo com narrativas tradicionais, Nagarjuna recuperou estes sutras do fundo do mar, onde os nagas os tinham protegido desde a altura em que Buda os tinha ensinado no Pico dos Abutres (Bya-rgod phung-pa’i ri, Sânsc. Grdhrakuta), perto de Rajagrha, no centro do norte da India. “Nagas” são seres meio-humanos meio-serpentes que vivem debaixo da terra e debaixo de corpos de água.
- A Escola Chittamatra baseou-se no Sutra da Descida a Lanka (Lan-kar gshegs-pa’i mdo, Sânsc. Lankavatara Sutra). Embora este sutra tivesse primeiro aparecido em Andhra, os ensinamentos Chittamatra foram desenvolvidos ainda mais por Asanga, que viveu durante a primeira metade do século IV d.C., em Gandhara, no atual Paquistão Central. Asanga recebeu estes ensinamentos através de uma visão do Buda Maitreya.
No início do século II d.C., Nalanda, a primeira universidade monástica budista, foi construída perto de Rajagrha. Nagarjuna ensinou ali, assim como muitos mestres Mahayana subsequentes. No entanto, estas universidades monásticas floresceram especialmente com a fundação da Dinastia Gupta, no início do século IV d.C. O seu curriculum enfatizava o estudo dos sistemas de asserções filosóficas e os monges participavam em debates rigorosos com os proponentes das seis escolas hindus e jainistas que se desenvolveram entre os séculos III e VI d.C.
O tantra também emergiu entre os séculos III e VI d.C., com o primeiro aparecendo uma vez mais em Andhra, no sul da India. Este foi o Tantra Guhyasamaja (dPal gSang-ba ‘dus-pa’i rgyud). Nagarjuna escreveu vários comentários. De acordo com a tradição budista, os tantras também tinham sido transmitidos oralmente desde a época em que Buda os ensinou, mas de um modo ainda mais privado do que tinham sido os ensinamentos dos sutras do Mahayana.
Rapidamente o tantra se espalhou para o norte. De meados do século VIII a meados do século IX d.C., floresceu especialmente em Oddiyana (U-rgyan), atual Swat Valley no noroeste do Paquistão. O ultimo tantra a aparecer foi o Tantra de Kalachakra (dPal Dus-kyi ‘khor-lo’i rgyud), em meados do século X d.C.
As monásticas universidades budistas alcançaram o seu apogeu no decurso da dinastia Pala (750 – finais do século XII d.C.), no norte da India. Muitas outras, tais como Vikramashila, foram construídas com patrocínio real. O estudo do tantra foi introduzido em algumas destas universidades monásticas, especialmente a Nalanda. Mas o estudo e a prática do tantra floresceram fora dos mosteiros, especialmente com a tradição dos oitenta e quatro mahasiddhas (grub-thob chen-po), entre os séculos VIII e XII d.C. “Mahasiddhas” são praticantes de tantra extremamente realizados.
O tantra também emergiu entre os séculos III e VI d.C., com o primeiro aparecendo uma vez mais em Andhra, no sul da India. Este foi o Tantra Guhyasamaja (dPal gSang-ba ‘dus-pa’i rgyud). Nagarjuna escreveu vários comentários. De acordo com a tradição budista, os tantras também tinham sido transmitidos oralmente desde a época em que Buda os ensinou, mas de um modo ainda mais privado do que tinham sido os ensinamentos dos sutras do Mahayana.
Rapidamente o tantra se espalhou para o norte. De meados do século VIII a meados do século IX d.C., floresceu especialmente em Oddiyana (U-rgyan), atual Swat Valley no noroeste do Paquistão. O ultimo tantra a aparecer foi o Tantra de Kalachakra (dPal Dus-kyi ‘khor-lo’i rgyud), em meados do século X d.C.
As monásticas universidades budistas alcançaram o seu apogeu no decurso da dinastia Pala (750 – finais do século XII d.C.), no norte da India. Muitas outras, tais como Vikramashila, foram construídas com patrocínio real. O estudo do tantra foi introduzido em algumas destas universidades monásticas, especialmente a Nalanda. Mas o estudo e a prática do tantra floresceram fora dos mosteiros, especialmente com a tradição dos oitenta e quatro mahasiddhas (grub-thob chen-po), entre os séculos VIII e XII d.C. “Mahasiddhas” são praticantes de tantra extremamente realizados.
III – O Oriente da Era Moderna ao fim do século XIX.
3.1) A presença ocidental no Oriente: guerras e comércio
Panikkar afirma que os 450 anos que estão entre a chegada ao Oriente de Vasco da Gama e a retirada das tropas inglesas da Índia em 1947, bem como dos navios europeus da China em 1949, constituem um verdadeiro período histórico[1]. Concordamos com a afirmação interessante do autor, No entanto, vale à pena ressalvar que muitos estudos tendem, como o próprio título da obra de Panikkar, a tentar afirmar uma dominação ocidental na Ásia àquilo que chamaríamos apenas de presença ocidental na Ásia.
Comércio de especiarias.
Verdadeiramente, à quebra do monopólio italiano sobre as famosas especiarias das “Índias” seguiram-se inúmeras tentativas de outros povos europeus em estabelecer monopólios e privilégios sobre o comércio com o Oriente, acostumado que estava o ocidental a tais monopólios – e continuaria assim até o estabelecimento do liberalismo.
A história da presença européia na Ásia durante a era moderna confunde-se com a história das tentativas de estabelecer monopólios tanto sobre o território asiático quanto sobre suas mercadorias, mas da mesma forma se confunde também com a história da resistência das sociedades asiáticas para com as tentativas de dominação ocidental, e não podemos deixar passar isso em branco.
3.2) A revolução Meiji: modernidade, tradição e presença estrangeira
A denominada Era Meiji veio a por fim no Shogunato Tokugawa no Japão.
Há que se diferenciar, contudo, shogunato de feudalismo. Este último, ao nosso entender, é um conceito ocidental, fenômeno amplamente estudado por Lê Goff e Duby e que se apresenta em linhas bem definidas. Entendemos como ´tabula rasa a comparação entre o Cavaleiro e o Samurai, entre o Senhor Feudal e o Shógun, além do que a relação entre senhor e camponês é intensamente diversa. Um pouco mais de lenha na fogueira: onde estão o padre e o cristianismo no japão dito “feudal”?
Yoshinobu Tokugawa.
Fonte: http://fi.wikipedia.org/wiki/Tokugawa_Yoshinobu
Mais que um nobre dono de terras, o Shógun é, antes de tudo, um líder militar considerado pelo império e que muitas vezes se confunde com o próprio governante, ao passo que o Senhor Feudal é um nobre com extensos privilégios mas que age sempre em nome do Rei. A relação entre o Shógun, o Império e os camponeses tem distinções características das próprias crenças nipônicas, assim como as relações entre Senhor Feudal, Camponês e Rei se deu dentro dos parâmetros da cristandade. As orientações religiosas são totalmente distintas – já discutimos sobre a religiosidade oriental anteriormente.
Samurais japoneses.
Os Samurais representam um grupo sem paralelo no Ocidente, pois eram soldados de elite, com uma ética própria e uma mentalidade característica. Tal ética chegava às vezes aos extremos. A intensa consciência japonesa da vida dos antepassados permite o sacrifício da própria vida em muitas situações. A honra, para muitos Cavaleiros do Ocidente, era mais um ornamento que se perdia ante os privilégios dados pela sua condição. Para o Japonês, sua condição de futuro antepassado lhe faz colocar a honra acima de tudo, por mais vil seja o seu caráter. Daí podemos concluir que a característica e o direcionamento do Samurai são totalmente distintos daqueles concernentes aos cavaleiros de Cristo.
Samurai. Fonte: http://aidobonsai.wordpress.com/2010/05/09/samurai/
Neste contexto, a Revolução Meiji representa, no Japão, a modernidade, mas não uma modernidade nos moldes ocidentais. A restauração Meiji, ou “do regime iluminado”, vem a superar o shogunato no Japão. Tal revolução redundará no fim de um estilo de vida fechado ao capitalismo e lançará o Japão na corrida capitalista internacional de forma acirrada, sobretudo na virada do século XIX para o XX.
Imperador Meiji. Fonte: http://www.infoescola.com/japao/era-meiji/
No estilo de vida capitalista, a presença estrangeira é estritamente necessária, uma vez que sem esta não haveria com quem o Japão comercializar. Contudo, devemos ter em conta que o capitalismo japonês tem suas características próprias, tendo superado uma forma de economia mas não suas tradições, o que ficou explicitamente comprovado nas duas grandes guerras, e pode ser comprovado até os dias de hoje.
3.3) A Guerra do Ópio e a resistência na China; influência do pensamento de Confúcio
Segundo Jonathan D. Spence[2], as importações de ópio passaram de 30 mil caixas em 1835 para quarenta mil em 1838 na China. Em 1836, o imperador Daoguang pediu aos seus conselheiros opiniões sobre a importação de ópio, e as mesmas divergiram. Alguns salientavam que a legalização da importação acabaria com a corrupção, mas muitos defendiam a tese de que esta iria aumentar.
Consumo de ópio na China no século XIX.
Consumo de ópio na China no século XIX.
O ópio era cultivado pelos ingleses nas colônias indianas e exportado para a China. Muitos intelectuais chineses viam nisso uma tentativa de colonialismo através da desarticulação dos chineses pela incursão e consumo do ópio.
No ano de 1838, sob ordem do referido imperador, o Mandarim Lin Zexu, na qualidade de comissário imperial partiu para Cantão com o Decreto Imperial que proibia o fim da prática do comércio do ópio.
Batalha naval na Guerra do ópio.
Ilustração da Guerra do ópio.
O comissário utilizou como estratégia para acabar com o ópio a mobilização do pensamento referente ao Estado Tradicional Confuciano, forte em sua ética. Fez apelos sobre os perigos da droga e ordenou sua entrega. Como afirma Spence, cerca de 7 toneladas de ópio e 70 mil cachimbos foram apreendidos. A teoria confuciana do estado discursava em torno dos ideais de razão, persuasão moral e coerção.
A guerra do ópio nada mais foi do que a tentativa das forças britânicas de, através de uma guerra com a China, impedir a proibição do comércio do ópio, sob a bandeira do livre-comércio.
3.4) Os Sipaios e a resistência indiana
Na qualidade de soldados indianos servindo ao Exército Britânico na Companhia das Índias Orientais, os Sipaios representam a primeira tentativa de independência da Índia do colonialismo britânico. Seu Líder, Mangal Pandei, é reconhecidamente herói nacional indiano.
Mangal Pandey.
A resistência dos Sipaios obedecia aspectos da não-violência da doutrina Hindu, apesar da tentativa de reunir exércitos de diversos marajás com o objetivo de combater os ingleses e expulsa-los.
Sipaios. Fonte: http://www.organizacionislam.org.ar/articulos/genocidio.htm
A importância desta resistência está relacionada ao fim da presença da Companhia das Índias Orientais na administração da Índia, tendo esta passado à partir de então diretmente às mãos do governo Inglês.
3.5) A popularização da Arte no Oriente e sua importância para a História
Ao contrário das culturas ocidentais – onde a arte é algo estritamente elitizado - os orientais parecem ter tomado um rumo distinto e oposto, ou seja, de popularização da arte. Muitos objetos e artefatos que fazem parte do acervo artístico oriental, no ocidente talvem não recebessem mais que a denominação depreciativa de artesanato – uma coisa tipo “quase arte”, que é popular e que não se dignou a adentrar nos conhecimentos teóricos e estéticos das elites das artes.
Templo Chinês.
Portal Chinês.
Fonte:http://imoveis.culturamix.com/blog/wp-content/gallery/arquitetura-chinesa/arquitetura-chinesa-15.jpg
Também ao contrário do artista ocidental, o oriental – com exceção das últimas décadas e mesmo assim em alguns casos, sendo os propagandeados pela mídia os mais freqüentes – ficou à margem da condição de celebridade acima do bem e do mal, sendo simplesmente um artista com tudo o que garante este conceito.
Muitas vezes a obra de arte é anônima, representando algo em si e se direcionando para a unidade que afirmamos anteriormente, que aglutina o sagrado e o profano.
Estamparia japonesa, Utagawa Hiroshige.
Estamparia Japonesa: Kitagawa Utamaro.
Costuma-se erroneamente estudar a arte oriental segundo os padrões ocidentais. Um dos equívocos mais freqüentes tem ocorrido com relação à noção de “belo”. Existe um padrão ocidental para este conceito totalmente distinto da mentalidade oriental com relação à beleza em diversos aspectos. Enquanto o Ocidente procurou o belo no rebuscar das novas técnicas e teorias estéticas, criando inclusive uma disciplina acadêmica de caráter científico para a análise artística e sua percepção, o oriental permeia o mundo moderno e, ao mesmo tempo, se mantém firme às tradições, valorizando o caráter de simplicidade de suas obras.
TEXTO COMPLEMENTAR:
Período Moderno
Da modernização Meiji à democracia Taishô
- de 1868 a 1926
O fim do domínio dos shoguns acontece no momento em que o mundo ocidental acabava de experimentar as principais revoluções civis, como a americana e a francesa. E a economia capitalista necessitava cada vez mais de novos mercados, inclusive o japonês. O isolamento provocado após a instauração do shogunato Tokugawa contrariava as leis de oferta e procura. Foi assim que a pressão internacional para a abertura dos portos começou na metade do século passado. Sem sucesso, entre os séculos XVIII e início do XIX, os navios ingleses e russos tentaram quebrar o isolamento. Entretanto, a situação iria se modificar.
A intervenção foi dos Estados Unidos na qual o comodoro Mathew Perry entrega uma mensagem ao emissário do shogum pedindo o fim do isolamento. Este fato acontece em1853. A abertura dos portos iria provocar, posteriormente, a derrubada do shogunato. Os antigos inimigos de Tokugawa, instalados em Kyushu, aproveitando-se da situação, conspiram. Período em que senhores feudais debelam-se contra os estrangeiros, demonstrando também descontentamento com a fraqueza do shogum. Quem se fortalece neste momento é o imperador, apoiado pelos que querem a derrubada do shogunato Tokugawa.
Por fim, depois de um longo período governado pelos shoguns, o governo centralizado na figura do Imperador volta a existir. A volta dos poderes ao Imperador ocorre em 1867.
Quem se encontra no trono é o jovem Mutsuhito que assumiu aos 14 anos, após a morte do imperador Kômei em 1866.
O retomo do governo para o imperador significa uma total reestruturação nacional, que passa a se chamar Restauração Meiji. Para realmente modificar as estruturas do país, Mutsuhito, o imperador Meiji precisou promover as mudanças mais radicais, como o abolição da classe dos samurais. Precisava modernizar o país para atender as necessidades de desenvolvimento capitalista. Em 1890 foi instituído um governo constitucional, tendo como modelo a constituição alemã.
Com o tempo, o governo japonês começa a enfrentar questões internacionais. Quer que a Coréia estabeleça relações comerciais com o Japão. Mas a China, que cobrava tributos da Coréia e a via como parte de seu território, não se simpatiza com os interesses japoneses. O desentendimento com a China irá lançar o Japão na primeira experiência bélica com o uso de armamentos modernos. Surpresos, os países do Ocidente assistem a vitória japonesa sobre a China. Aumenta no Japão o sentimento nacionalista, fortalecendo o espírito militar.
Numa outra guerra, desta vez com a Rússia, novamente o sucesso esteve do lado do Japão. A partir de então, o Japão pode se considerar a nação mais influente de toda Ásia.
O mérito do imperador Meiji, que governou o Japão por 45 anos, foi o fortalecimento interno, modernizando em pouco tempo os setores industriais, políticos e sociais. É também o momento de efervescência intelectual com a tradução e leitura dos clássicos ocidentais.
Durante o governo Meiji, a concentração urbana causada pelos êxodos rurais, vai provocar a emigração para outros países. Primeiro os emigrantes foram para o Havaí, depois Peru e, a partir de 1908, vieram para o Brasil.
O fenômeno emigratório japonês é conseqüência de momentos de grandes mudanças estruturais na sociedade japonesa. Se durante o período de reclusão, da era Tokugawa, os japoneses tiveram que isolar-se do resto do mundo, mudanças radicais aconteceriam com o advento da era Meiji. De certa forma, o processo se deu de maneira inversa. A transição do trabalho campesino para o industrial trouxe conseqüências drásticas. Problemas de modernidade que o Japão foi obrigado a resolver através da emigração.
O imperador Meiji morre em 1912, tendo como sucessor o príncipe Yoshihito, o imperador Taishô. É neste governo que o Japão participa da I Guerra, ao lado dos aliados. Não foi um governo centralizador como o de Meiji, caracterizado pelo avanço das idéias democráticas. Os democratas queriam menos poder para o imperador e mais para o povo. O sufrágio universal se torna lei em 1925, mas só beneficiando homens acima de 25 anos. Movimentos de cunho operário ganham notoriedade ao lado das idéias socialistas e as dos sindicatos.
Entretanto, mal a democracia começa a criar raízes, nos moldes ocidentais, ela tem morte prematura. Tal como o cristianismo nos séculos XVI e XVII, a democracia é uma idéia pouco atraente para a aristocracia japonesa. A oligarquia não está disposta a ceder espaço. O primeiro-ministro Hara Takashi assume o cargo em 1918. Três anos foram suficientes para que um atentado colocasse fim ao seu governo. Hara não era ligado nem à aristocracia e nem à oligarquia "hambatsu", que apoiava o imperador.
No setor econômico, o Japão obteve sucesso durante o período Taishô. Conseguiu monopolizar o mercado asiático, sem a intromissão dos europeus. Devido a desgaste provocado pelo conflito de1914 a 1918, a Europa estava debilitada. Os industriais japoneses lançam-se a construir navios diante da escassez mundial deste produto. E conseguem capitalizar na indústria naval. Os produtos industrializados, antes fornecidos pela Alemanha, agora são fabricados pelos japoneses que conquistam o mercado. É o caso dos produtos químicos, medicamentos, tintas e adubos. Dos ingleses, os japoneses tomam o mercado asiático de fiação e tecelagem.
Os grandes bancos japoneses são formados nesta época, devido, principalmente, ao crescimento do parque industrial. São grupos de créditos como o Mitsui, Mitsubishi, Sumitomo, Yasuda e Daiichi.
O crescimento da economia japonesa foi temporário. Durou enquanto a Europa demorou para se recuperar. Com o fim da guerra, os japoneses conheceram o reverso do sucesso capitalista. Os produtos japoneses perdem espaço no mercado. Com isso, a recessão toma conta da vida dos japoneses, mas é justamente nesta situação que prosperam as idéias democráticas.
O fim da era Taishô, de altos e baixos, de democracia e crescimento econômico, vai ser marcado com a ascensão das idéias nacionalistas, com o respaldo dos militares.
A intervenção foi dos Estados Unidos na qual o comodoro Mathew Perry entrega uma mensagem ao emissário do shogum pedindo o fim do isolamento. Este fato acontece em
Por fim, depois de um longo período governado pelos shoguns, o governo centralizado na figura do Imperador volta a existir. A volta dos poderes ao Imperador ocorre em 1867.
Quem se encontra no trono é o jovem Mutsuhito que assumiu aos 14 anos, após a morte do imperador Kômei em 1866.
O retomo do governo para o imperador significa uma total reestruturação nacional, que passa a se chamar Restauração Meiji. Para realmente modificar as estruturas do país, Mutsuhito, o imperador Meiji precisou promover as mudanças mais radicais, como o abolição da classe dos samurais. Precisava modernizar o país para atender as necessidades de desenvolvimento capitalista. Em 1890 foi instituído um governo constitucional, tendo como modelo a constituição alemã.
Com o tempo, o governo japonês começa a enfrentar questões internacionais. Quer que a Coréia estabeleça relações comerciais com o Japão. Mas a China, que cobrava tributos da Coréia e a via como parte de seu território, não se simpatiza com os interesses japoneses. O desentendimento com a China irá lançar o Japão na primeira experiência bélica com o uso de armamentos modernos. Surpresos, os países do Ocidente assistem a vitória japonesa sobre a China. Aumenta no Japão o sentimento nacionalista, fortalecendo o espírito militar.
Numa outra guerra, desta vez com a Rússia, novamente o sucesso esteve do lado do Japão. A partir de então, o Japão pode se considerar a nação mais influente de toda Ásia.
O mérito do imperador Meiji, que governou o Japão por 45 anos, foi o fortalecimento interno, modernizando em pouco tempo os setores industriais, políticos e sociais. É também o momento de efervescência intelectual com a tradução e leitura dos clássicos ocidentais.
Durante o governo Meiji, a concentração urbana causada pelos êxodos rurais, vai provocar a emigração para outros países. Primeiro os emigrantes foram para o Havaí, depois Peru e, a partir de 1908, vieram para o Brasil.
O fenômeno emigratório japonês é conseqüência de momentos de grandes mudanças estruturais na sociedade japonesa. Se durante o período de reclusão, da era Tokugawa, os japoneses tiveram que isolar-se do resto do mundo, mudanças radicais aconteceriam com o advento da era Meiji. De certa forma, o processo se deu de maneira inversa. A transição do trabalho campesino para o industrial trouxe conseqüências drásticas. Problemas de modernidade que o Japão foi obrigado a resolver através da emigração.
O imperador Meiji morre em 1912, tendo como sucessor o príncipe Yoshihito, o imperador Taishô. É neste governo que o Japão participa da I Guerra, ao lado dos aliados. Não foi um governo centralizador como o de Meiji, caracterizado pelo avanço das idéias democráticas. Os democratas queriam menos poder para o imperador e mais para o povo. O sufrágio universal se torna lei em 1925, mas só beneficiando homens acima de 25 anos. Movimentos de cunho operário ganham notoriedade ao lado das idéias socialistas e as dos sindicatos.
Entretanto, mal a democracia começa a criar raízes, nos moldes ocidentais, ela tem morte prematura. Tal como o cristianismo nos séculos XVI e XVII, a democracia é uma idéia pouco atraente para a aristocracia japonesa. A oligarquia não está disposta a ceder espaço. O primeiro-ministro Hara Takashi assume o cargo em 1918. Três anos foram suficientes para que um atentado colocasse fim ao seu governo. Hara não era ligado nem à aristocracia e nem à oligarquia "hambatsu", que apoiava o imperador.
No setor econômico, o Japão obteve sucesso durante o período Taishô. Conseguiu monopolizar o mercado asiático, sem a intromissão dos europeus. Devido a desgaste provocado pelo conflito de
Os grandes bancos japoneses são formados nesta época, devido, principalmente, ao crescimento do parque industrial. São grupos de créditos como o Mitsui, Mitsubishi, Sumitomo, Yasuda e Daiichi.
O crescimento da economia japonesa foi temporário. Durou enquanto a Europa demorou para se recuperar. Com o fim da guerra, os japoneses conheceram o reverso do sucesso capitalista. Os produtos japoneses perdem espaço no mercado. Com isso, a recessão toma conta da vida dos japoneses, mas é justamente nesta situação que prosperam as idéias democráticas.
O fim da era Taishô, de altos e baixos, de democracia e crescimento econômico, vai ser marcado com a ascensão das idéias nacionalistas, com o respaldo dos militares.
OBS.
Extraído do livro História do Japão – Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar.
:: História do Japão
Autor: Francisco Handa, Doutor em História pela Unesp, é monge budista da escola Soto Zen. Grande incentivador do Haikai, Handa foi editor do jornal Portal (de cultura japonesa) e autor de diversos artigos sobre o assunto.
Leia mais no livro “História do Japão em Mangá” – 2ª edição 2001, Associação Cultural e Esportiva Saúde, autores: Francisco Noriyuki Sato, Antonio Paulo Goulart, Roberto Kussumoto e Francisco Handa.
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IV – O Oriente do século XX aos dias atuais.
4.1) Os processos de descolonização na Ásia
O imperialismo colonialista se estendeu pela Ásia na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX. A desculpa comum das nações imperialistas era a de estar levando a civilização às nações desprovidas desta qualidade e característica. No entanto, na prática, a atividade imperialista envolvia tão somente a exploração, e as novidades da dita civilização eram levadas somente naquilo que atenderia aos interesses das nações colonizadoras. Logo, a ação imperialista pode ser vista nitidamente como uma atividade de expansão de território e exploração de outros povos, seja na matéria-prima necessária à industrialização que se desenvolvia na Europa, seja na obtenção de mão-de-obra a custos baixíssimos.
Descolonização na Argélia.
FONTE:http://segundaguerramundial.mi-web.es/guerra-de-independencia-de-argelia-t7068.html
Os processos de descolonização ocorrem em geral no período em que as nações européias estão envolvidas com a Grande Guerra.
Já havia, desde o período dos protetorados, uma espécie de classificação das sociedades asiáticas e africanas em termos de autonomia. Desta forma temos, por exemplo, dentro da referida classificação, o Egito despontando como nação com condições próximas da autonomia, devendo ser quase que “observada” pelos tutores. De fato, a independência do Egito não ocorria nunca, e a tal condição de proximidade da autonomia se estendia ano após ano, até o momento em que as lideranças egípcias resolveram cobrar tal autonomia, que não surgiu de graça.
Centenas de argelinos mortos em um campo de futebol pelos franceses.
Além deste primeiro tipo de sociedades, haviam também dois outros, segundo esta tríplice tipologia: o segundo era composto por povos que necessitavam de uma presença mais marcante da chamada civilização entre eles até adquirir o caráter de autonomia, e o terceiro estava longe disso.
O momento da Segunda Grande Guerra era propício aos processos de descolonização, pois os povos dominados não estavam diretamente envolvidos com a Guerra e as nações dominadoras sim. Logo, seu enfraquecimento era líquido e certo. Mesmo assim, não houve processo de descolonização sem luta e sem perdas por parte dos povos descolonizados.
4.2) Mahatma Gandhi e a independência da Índia; Muhammad Jinnah, o Paquistão e a quebra da Unidade indiana
Mohandas Karamchand Gandhi, mais conhecido como Mahatma Gandhi, foi o líder político e religioso mais expressivo do Oriente no século XX. Ele conseguiu, aglutinando lideranças de outras religiões como Siks e Muçulmanos, mesmo sendo hindu, criar um esquema de ação contra a nação imperialista inglesa que a deixou paralisada.
Gandhi e Charles Chaplin.
FONTE:http://www.publiqueideias.com/curiosidades/fotos-curiosas-e-impressionantes
Aproveitando-se da propaganda e de seu slogan de não-violência – um dos preceitos básicos da fé hindu – Gandhi direcionou uma resistência pacífica que explorava a reação dos ingleses e admoestava-os com a repercussão desta reação na mídia internacional, de modos que todos no mundo se comoviam com a atitude muito inteligente do Mahatma. Desobediência civil e não violência eram os lemas básicos de Gandhi, que conseguiu a independência da Índia em 1947, tendo por Primeiro Ministro o célebre Jawaharlal Panditji Nehru.
Mahatma Gandhi e Muhammad Jinnah.
Gandhi e Nehru.
Contudo, se a não-violência funcionou bem com a nação inglesa, parece não ter ocorrido da mesma forma dentro da própria Índia, e não foi possível uma unificação. Liderados por Muhammad Jinnah, algumas lideranças muçulmanas decidem pela separação, apesar de todos os apelos de Gandhi – inclusive a oferta da composição de um ministÉrio somente de muçilmanos e a colocação de Jinnah como Primenro Ministro da Índia. Em agosto do mesmo ano de 1947, é criado o Estado do Paquistão, tendo como presidente Muhammad Jinnah.
Gandhi chegou a realizar greves de fome pela paz religiosa na Índia, pois a luta entre hindus, Siks e Muçulmanos parecia bastante acirrada. Na última destas greves quase perdeu a vida.
Gandhi: resistência pacífica.
Apesar da criação do estado do Paquistão, muitos muçulmanos permaneceram na Índia e lá vivem até hoje. O líder político-religioso Mahatma Gandhi foi assassinado em 1949 por um fanático Sikh.
4.3) As sociedades orientais no Pós Guerra; as Guerras da Coréia e do Vietnã; Mao Zedong e a Revolução Chinesa
Vietnamita capturado. Fonte: http://guerradovietna-cnsa.blogspot.com/
O pós-guerra traz algumas novidades em relação ao período anterior. Uma delas é o retorno do Japão às boa falas ocidentais, após sua derrota, conseqüente de sua aliança às potências do eixo durante a Segunda Guerra Mundial.
A mídia ocidental, apesar da presença ativa do comunismo na China desde a década de 20, demonizara o Japão e exaltara a civilização chinesa, devido ao motivo anteriormente citado e ao combate particular entre Japão e Estados Unidos, a potência que emergira após a Primeira Guerra e tomara o lugar central dos britânicos no cenário internacional.
Mao proclama a República Popular da China em 1949.
Durante a guerra contra o Japão – e por ocasião da invasão japonesa na China e de episódios drásticos característicos de guerras, como o estupro de Nanking – desenvolveu-se intensamente não apenas uma propaganda anti-japonesa, mas também exaltando os chineses e sua história, como um povo pacífico que havia sido usurpado pelos japoneses, os quais deveriam ser contidos a qualquer custo – mesmo, pode-se dizer, com o uso de artefatos nucleares.
Após a instauração do governo de Mao Zedong ( pronuncia-se Mao Cedõn), e a oficialização da China Comunista, as coisas mudaram.
Civis coreanos durante a Guerra da Coréia.
O “terror comunista” também amedrontou os Estados Unidos e o mundo capitalista com relação a coréia e ao Vietnã.
A Guerra da Coréia foi uma guerra anticomunista contra a Coréia do Norte, que era apoiada pela República Popular da China, que no período de 1950 e 1953 já era inimiga dos Norte-Americanos, como todo país comunista.
Imagem da última guerra da Coréia.
Fonte:http://questionetudosempre.blogspot.com/2010/07/coreia-do-norte-ameaca-usar-dissuasao.html
Os Estados Unidos apoiaram e incentivaram a Coréia do Sul neste conflito. O tresultado do conflito foi tão somente um “cessar fogo”, após ter feito milhares de vítimas nos combates fratricidas incentivados pelos blocos internacionais – e com direito à intervenção da ONU.
Guerra do Vietnã.
Imagem 1: Fonte: http://www.colegioweb.com.br/historia/guerra-do-vietna.html
Imagem 2: Fonte: http://www.grupoescolar.com/materia/a_guerra_do_vietna.html
No que diz respeito à Guerra do Vietnã, novamente temos o confronto entre o Vietnã do Sul, apoiado pelos Estados Unidos, e o Vietnã do Norte, apoiado pela União Soviética. Os países ligados a ambos os Blocos participaram contribuindo para o sucesso de seus respectivos aliados. Esta guerra ficou marcada pela intromissão norte-americana no cenário internacional, até porque havia uma tendência para a unificação e da implementação de um regime socialista; e também devido ao seu pavor de comunismo, e pelo desfecho trágico que trouxe à própria nação norte-americana, considerada derrotada no conflito.
Vítimas civis da Guerra do Vietnã.
Os empreendimentos norte-americanos, apesar do poder divulgado, malograram e as tropas dos Estados Unidos foram obrigadas a se retirar em 1973. No ano de 1976, a unificação oficializou-se e o país tornou-se a República Socialista do Vietnã.
Vietnamita capturado. Fonte: http://www.underflash.com/vietna-fotos-de-uma-guerra
4.4) Conflitos no Oriente Médio: Sionismo e Nasserismo
O oriente médio sempre foi alvo de interesses dos países europeus e dos Estados Unidos, devido a grande quantidade de petróleo em seu espaço geográfico, e a história do Oriente Médio no século XX confunde-se com a luta de resistência dos países árabes em relação ao domínio das potências ocidentais interessadas na região.
Crianças palestinas mortas pelo imperialismo americano liderado por sionistas.
Fonte: http://klaudiocarneiro.blogspot.com/2009/01/hitler-vive.html
Nas primeiras décadas do século a grande protagonista destes interesses foi a Inglaterra, passando-os posteriormente às mãos dos norte-americanos.
Como aliado histórico dos Estados Unidos, o estado de Israel começou a se contruir já em fins do século XIX, quando grupos de judeus eram mandados para a Palestina. Com o final da Segunda Guerra Mundial, a questão do holocausto e dos campos de extermínio alemães criados para os judeus comoveu a opinião internacional. Já havia um número considerável de judeus vivendo na Palestina neste momento, e foi complementado pela migração de judeus de várias partes do mundo para a região.
Palestinos desabrigados. Fonte:
A idéia de se formar um estado judaico em Israel tem por base a teoria sionista de Teodor Herzl, através do qual se iniciou o processo ainda em fins do século XIX. Em 1897 surge, então, o Sionismo Político, que visava a formação do Estado de Israel, a qual se deu efetivamente com a declaração da independência de Israel em 1948 e sua conseqüente legitimação pela ONU.
Corpo de menina encontrado nos escombros após bombardeio israelense.
O problema durante a formação do referido Estado foi justamente a colocação de um contingente de judeus onde já haviam palestinos. Logo, a formação de Israel não ocorreu sem conflito. Era preciso desalojar os palestinos para se colocar os judeus, e isto assim ocorreu. Milhares de palestinos foram expatriados e muitos foram simplesmente massacrados no conflito árabe-israelense, que teve apoio norte-americano para Israel. A despeito dos diversos armistícios e tentativas de pacificação na região, o conflito perdura até os dias de hoje, uma vez que os palestinos se consideram roubados e usurpados em seu território e denunciam o apoio da ONU e sua atuação a favor de israel.
O terrorismo desenvolve-se de ambos os lados como retaliação à ataques perpetrados pelos oponentes ou mesmo a título de ameaça. Mas a resistência não é apenas do povo palestino, senão de todas as nações árabes, ameaçadas pelo interesse internacional em torno do petróleo.
Gamal Abdul Nasser.
Nas décadas de 1950/60, o presidente egípcio Gamal Abdel Nasser (pronuncia-se Jamal Abdul Nasser) desenvolveu nas nações árabes o espírito do pan-arabismo, que visava a criação de um grande Estado Árabe. Essa tentativa fracassou sobretudo por ocasião da derrota na Guerra dos Seis Dias. Os governantes posteriores a Nasser abandonaram a idéia, denominada politicamente de “Nasserismo”. A Guerra dos seis dias opôs uma Liga de países árabes, liderados por Egito, Síria e Jordânia contra Israel.
Gamal Abdul Nasser e Nikita Krushev.
DOCUMENTO EM IMAGEM:
FONTE: http://www.jblog.com.br/hojenahistoria.php?itemid=19213
DOCUMENTO EM IMAGEM:
Especial
VEJA, maio de 1948
Exércitos invasores encontram resistência inesperada e
deixam população árabe na Palestina em xeque. Êxodo segue com mais
de 200.000 refugiados, muitos deles vagando pelo deserto
deixam população árabe na Palestina em xeque. Êxodo segue com mais
de 200.000 refugiados, muitos deles vagando pelo deserto
O flagelo dos palestinos: prisioneiros de guerra imploram por água em Ramle (à esq.) e casal de idosos se arrasta pela areia
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"Que belo dia, este 14 de maio, quando o mundo árabe prende a respiração na expectativa da entrada dos sete exércitos na Palestina para redimi-la dos sionistas e do Ocidente. Neste dia, as forças árabes invadirão por todos os lados e se colocarão como um só homem, para exigir justiça e para satisfazer a Deus, à consciência e ao senso do dever."
anotação de um oficial da Legião Árabe em seu diário resumia todo o sentimento dos árabes na questão Palestina. As vésperas do final do mandato britânico, com os judeus prometendo fazer cumprir a partilha aprovada pelas Nações Unidas, a Liga Árabe sentiu-se convidada a invadir a Palestina para restaurá-la aos habitantes árabes. Entre seus membros, não havia dúvidas de que o intento seria alcançado sem dificuldades. Azzam Pasha, o secretário-geral da entidade, ainda se dava o direito de anunciar a dilapidação completa do inimigo. "Conduziremos um massacre para rivalizar com aqueles conduzidos pelas hordas mongóis", garantiu, logo no início das hostilidades.
Pasha: o árabe prometia um massacre
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Todavia, a confiança e a certeza dos invasores logo soçobraram. Sem um comando unificado, com soldados despreparados e com interesses completamente distintos entre si, os exércitos árabes foram surpreendidos pela resistência vicejante dos judeus. Pouco mais de duas semanas se passaram desde que David Ben-Gurion anunciou a independência de Israel, e os árabes estão muito longe de conquistar seus objetivos, com seus combatentes exauridos pelos prélios. A situação só é mais catastrófica para os palestinos: acredita-se que entre 200.000 e 250.000 deles tenham deixado suas casas, em pânico, rumo aos países árabes vizinhos nas semanas que antecederam o mandato e na primeira quinzena da invasão – sem contar as outras tantas vítimas de embates fatais.
Árabes e judeus culpam-se uns aos outros pela expatriação dos palestinos, que causa preocupação na comunidade internacional e já é questão prioritária nos debates das Nações Unidas. Israel afirma que a fuga em massa foi incentivada pelos próprios governos árabes, não só a fim de abrir espaço para a invasão de seus exércitos, mas também visando criar comoção ao redor do globo. Com isso, ganhariam apoio para a causa palestina – as imagens de famílias palestinas vagando pelo deserto carregando apenas a roupa do corpo e alguns jarros de água são deveras impactantes. As autoridades judaicas argumentam que, na declaração de independência, garantiram liberdade e cidadania para os árabes palestinos em terras de Israel – promessa que, aparentemente, não foi levada a sério.
Fuga da Galiléia: temendo as tropas de Israel, palestinos abandonam seus vilarejos
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Carnificina e debandada - No outro front, as nações árabes afirmam que orientaram os palestinos a não deixarem suas residências, estabelecendo inclusive punições para os jovens em idade militar que fugissem de suas cidades e confiscando as propriedades daqueles que fossem embora sem autorização. A culpa pelo desterro, de acordo com seus líderes, seria dos sionistas – e não apenas pela expulsão de civis na ponta da baioneta, como também pelo terror a eles infligido. Nesse ponto, a carnificina do vilarejo de Deir Yassin, no início de abril, onde cerca de 200 locais foram dizimados e tiveram seus corpos mutilados e jogados em um poço, é sem dúvida fator importante no imaginário palestino. Ainda que a Haganá tenha repreendido vigorosamente a ação – inclusive prendendo os oficiais responsáveis –, o temor de uma repetição do mortifício se alastrou pela população local, com conseqüências pouco animadoras.
Independente disso, é fato que a debandada civil tem uma explicação bem mais palpável: o colapso absoluto das instituições árabes na Palestina no crepúsculo do mandato britânico, com a fuga de seus principais líderes. Juízes, mukhtars, cádis e outras autoridades foram os primeiros a abandonar cidades como Haifa, Jaffa e a Cidade Nova de Jerusalém. Sem a elite de sua estrutura social, e encarando o formidável aparelhamento do estado de Israel, muitos decidiram partir para portos mais seguros – ou seja, terras seguramente árabes. E, nas entrelinhas, os judeus já indicaram que o retorno dos refugiados às antigas terras da Palestina não será bem-vindo.
Rendição na vila de Ramle: desespero
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Para piorar, os membros da Liga Árabe, que na declaração de invasão, datada de 15 de maio, usavam a segurança dos palestinos como justificativa para o início da guerra, pouco ou nada vêm fazendo nesse sentido. Sem uma coordenação de fato (o rei Abdullah da Transjordânia se auto-proclamou, no dia 14, comandante-em-chefe dos exércitos árabes, mesmo não tendo a menor idéia do que se passa nas tropas aliadas), as manobras militares acabam atendendo os interesses pessoais de seus líderes – e, para desespero dos palestinos, sempre funcionam na base do cada um por si, Alá por todos. Ademais, ainda reverberam as palavras do cabotino Azzam Pasha e seu massacre anunciado mas não levado a cabo. Com os papéis invertidos, não é de se estranhar que os árabes palestinos esperassem o mesmo tratamento dos judeus. E, nesse caso, realmente não convém pagar para ver.
TEXTO COMPLEMENTAR:
A SOCIEDADE HINDU HOJE EM DIA
A ESTRUTURA FAMILIAR
A sociedade hindu atual é muito diferente da sociedade hindu do período védico. Contudo, algumas das antigas tradições continuam sendo parcialmente seguidas ou de forma modificada. Os hindus „já não passam pelos quatro estágios de vida como os seus ancestrais faziam. Depois do estágio de estudante, com algumas exceções, um hindu começa o estágio de um chefe de família e nele permanece até a morte. Ele já não passa pelos estágios de afastamento e ascetismo.
Aproximadamente noventa porcento das pessoas na Índia vivem em aldeias. As pessoas da Índia rural dependem principalmente da agricultura para o seu sustento. Até mesmo a duas gerações passadas, a maioria dos hindus vivia em grandes famílias estendidas. Os filhos casados viviam com seus pais, irmãos, irmãs solteiras, tios, tias, primos, sobrinhos, sobrinhas, e avós. A produção da fazenda geralmente alimentava famílias grandes assim. Hoje, por razoes econômicas e populacionais, esse sistema de grandes famílias vem se transformando e dando espaço para famílias menores – embora a tradição de que filhos casados vivam com seus pais, irmãos e irmãs solteiras é ainda seguido pelos hindus.
A CONDICÃO DAS MULHERES
NA ATUAL SOCIEDADE HINDU
A maternidade é considerada a maior gloria das mulheres hindus. O Taittirīya Upanishad, “Mātridevo bhava” – “ Que a sua mãe seja um deus para você ”. A tradição hindu reconhece a mãe e a terra mãe, superiores até ao paraíso. O épico Mahābhārata diz, “Enquanto o pai é superior a dez sacerdotes brahmins conhecedores dos vedas, uma mãe é superior a dez desses pais, ou ao mundo inteiro”. No hinduísmo, Deus é visto também como a Mãe Divina, e as bênçãos de ambos, pais e mães, são queridas pelos filhos para que esses sucedam na vida. Considera-se o amor materno, o amor mais não egoísta, pois quando uma mãe cuida do bebê, tudo que ela quer é o bem estar do bebê e não espera nada em retorno. Isso torna o seu amor superior às outras formas de amor no mundo. Essas são as razoes pelas quais uma mãe hindu é altamente adorada por seus filhos. Para seus filhos, ela é a própria encarnação da castidade, da pureza e do amor não egoísta. A sociedade hindu jamais tolerará que uma mãe ou irmã sejam insultadas, e uma revolta pode começar na Índia, pela punição daquele que forçosamente tenha violado a castidade de uma mulher ou moça hindu. Para entender a posição da mulher na sociedade hindu, é importante reconhecer esses sentimentos hindus.
Na Índia antiga, as mulheres hindus não cobriam seus rostos e desfrutavam de uma considerável liberdade na sociedade, mas ataques estrangeiros repetidos através dos séculos, mudou essa situação. Durante tais agressões, e também enquanto a Índia estava sob ocupação estrangeira, a honra e a castidade
das mulheres com freqüência eram as vítimas. Houveram muitos casos de mulheres hindus que se mataram para não render-se a tais indignidades cometidas por seus agressores. Como resultado disso, a sociedade hindu tornou-se mais e mais protetora de suas mulheres. A liberdade das mulheres foi reduzida, e para proteger-se, as mulheres hindus começaram a cobrir seus rostos com véus, e já não podiam educar-se longe de seus lares. Ao invés disso, ficavam em casa, e adquiriam a educação que estava disponível ali, às vezes nenhuma. Sua participação em eventos sociais ficou muito restrita.
No final do século 19, durante o domínio britânico, alguns poucos movimentos reformistas foram iniciados na tentativa de remediar alguns males da sociedade hindu, e para prevenir a conversão de hindus a outras religioes. Um grande reformista, Rājā Rāmmoham Roy ( 1772 – 1833 ), acreditava entre outras coisas, em dar uma educação mais elevada e mais liberdade social para as mulheres. Ele fundou uma organização religiosa chamada Brāhmo Samāj, que iniciou muitas escolas para mulheres na Índia. O Swāmī Dayānanda Sarasvatī ( 1824 – 1883 ), fundador do Ārya Samāj, também acreditava na educação para as mulheres. De acordo com Swāmī Vivekānanda, o fundador da Missão Rāmakrishna, “Não existe chance para o bem estar do mundo a não ser que a condição das mulheres melhore. É impossível para um pássaro, voar com apenas uma asa”. A Missão Rāmakrishna administra muitas instituições educacionais modelo para homens e mulheres na Índia.
O PAPEL DA COMIDA
Desde o início do período védico, uma grande importância tem sido dada à que tipo de alimento pode ser comido sem riscos pelos indo-arianos. Nem todos os tipos de comidas são consideradas boas para o bem estar físico e espiritual das pessoas. O antigo legislador Manu, descreveu detalhadamente que alimentos são proibidos e quais são permitidos.
SERÁ QUE OS ANCESTRAIS VÉDICOS DOS HINDUS
COMIAM CARNE ?
Os ancestrais védicos dos hindus comiam, entre outras coisas, certos tipos de carne permitidos pelo seu livro de leis (Smriti). Apesar do consumo de carne ser permitido, Manu recomendava o vegetarianismo baseado na não-violência. Manu diz: “Não existe pecado em comer carne... mas a abstenção traz grandes recompensas.” Toda comida, inclusive carne, deveria primeiramente ser oferecida a Deus.
Uma pergunta feita com freqüência é a se os ancestrais védicos dos hindus comiam carne vermelha, e existem razões válidas para acreditar que os arianos védicos comiam carne vermelha sim, embora vacas leiteiras nunca fossem mortas. Uma vaca leiteira era chamada de aghnyā, o que quer dizer, “o que não deve ser morto”. Apenas touros, bezerros e vacas estéreis eram mortos por sua carne.
PORQUE OS HINDUS ATUAIS
NÃO COMEM CARNE VERMELHA
A tradição de não comer carne vermelha chegou ao hinduísmo muito mais tarde. Alguns eruditos pensam que a influência do jainismo pode ter algo a ver com isso. Além disso, nas áreas rurais, onde a maioria das pessoas vive na Índia, quase todo lar hindu possui pelo menos uma vaca leiteira. As vacas indianas são muito gentis por natureza e são como membros da família. As crianças crescem bebendo do seu leite e tratam-nas da mesma maneira que cães de estimação são tratados nos países ocidentais. Não só pelo tabu religioso, no que diz respeito a comer carne vermelha, essa é uma outra razão pela qual um hindu jamais poderia pensar em matar uma vaca e comer sua carne. Além disso, os hindus sempre tentam evitar a matança de fêmeas de qualquer espécie animal, tanto o quanto for possível.
A VACA É SAGRADA ?
No ocidente existe a idéia de que os hindus não comem carne vermelha porque consideram a vaca um animal sagrado. Essa noção não é correta. O hinduísmo, como as outras religiões teístas do mundo, acredita que Deus está presente em todos os lugares. Ela está igualmente presente em todos os seres e em todos os lugares, mas não igualmente manifestado. Deus está mais manifestado em uma incarnação divina ou em um santo, do que nos seres humanos normais, e ainda menos manifestado nos animais, nas plantas e em outras formas inferiores de vida, como nas pedras. Portanto, Deus deve também estar presente na vaca, caso contrário, isso contradiria a idéia de Sua onipresença. Sendo Ele o que há de mais sagrado, o que quer que tenha a Sua presença tem de ser sagrado, e porque não uma vaca? Mesmo assim, um hindu
jamais consideraria uma vaca como sendo superior a um ser humano, pois a manifestação de Deus em um vaca, num animal, é muito menos pronunciada do que em seres humanos.
Na antiga e nômade cultura indo-ariana, as vacas tinham um papel muito útil, pois o seu leite nutria os arianos. A manteiga clarificada, a principal fonte de óleo comestível para os arianos, era também usada nas lâmpadas à óleo. Os sapatos e outros bens essenciais eram feitos com o couro da vaca, e o esterco seco era usado como combustível. Assim, partindo provavelmente de um ponto de vista utilitário, os arianos desenvolveram um sentimento especial de predileção em relação as vacas. Em países ocidentais, tais sentimentos ganham voz em afirmações tal qual: “O cavalo é um animal nobre”. Mas tal afirmação não deve ser interpretada literalmente. Assim como um puro-sangue é admirado como sendo um ótimo e extremamente valioso animal, da mesma forma, os antigos indo-arianos devem ter tido um sentimento de admiração pelas vacas, e nada além disso.
OS TIPOS CORRETOS DE ALIMENTOS
PRESCRITOS PELAS ESCRITURAS
O Bhagavad Gītā, a bem conhecida escritura hindu, ensina que apenas comidas suculentas, calmantes, integrais e agradáveis devem ser ingeridas para o bem estar físico e espiritual da pessoa. Comidas excessivamente amargas, azedas, muito salgadas, muito quentes, picantes, secas e ardidas devem ser evitadas. A pessoa deve também evitar comidas passadas, sem sabor, podres e impuras.
As escrituras das seitas vaishnava e shaiva, prescrevem o alimento vegetariano a seus seguidores. Aos que pertencem a seita shākta, suas escrituras permitem que comam carne, peixe e até mesmo tomem vinho consagrado. O resultado é que alguns hindus carregam consigo sentimentos negativos e até mesmo de ódio em relação a hindus de outras seitas, que comem outros tipos de comida. Contudo, os santos nunca apoiaram tais sentimentos negativos. O Swāmī Vivekānanda lamentou: “Na Índia, a religião foi parar na panela.” Srī Rāmakrishna costumava dizer: “Se uma pessoa que come carne de porco pode pensar em Deus incessantemente, ela é muito superior a uma pessoa que come comida vegetariana e ainda assim pensa nos objetos dos sentidos durante todo o tempo.” Meerā Bāi, uma conhecida santa indiana, costumava dizer:
Se comer frutos e raízes possibilitasse a visão de Deus,
Porque os morcegos e os macacos não o vêem?
Se banhar-se em águas sagradas possibilitasse o conhecimento de Deus,
Porque os peixes não o conhecem?
Se comer vegetais e folhas possibilitasse encontrar a Deus,
Porque os cervos e os bodes não o encontram?
Se renunciar as suas esposas possibilitasse a visão de Deus,
Porque os eunucos não o vêem?
Sem o amor de Deus, diz Meerā,
Ninguém jamais terá a visão de Deus.
(...)
A ÉTICA HINDU
A fundação da ética hindu é o ensinamento védico de que Deus (Brahman) e o Ser interior do homem são um e o mesmo. Por detrás do homem psicofísico, está o Ser, que é divino. Ayam ātmā Brahma – “Este Ser é Brahman”, é o ensinamento fundamental das escrituras hindus.
O Ser forma o âmago do ser do homem, e é diferente do seu corpo físico, da sua energia vital, dos sentidos e da mente. O ego do homem não é esse Ser. O ego, ou a noção do Eu, é apenas uma idéia, é puramente mental, e sendo mental, não pode ser o Ser. Esse Ser do homem, em sânscrito chama-se Ātman.
Se Brahman fosse comparado a um oceano infinito, então o Ātman seria uma onda no oceano. O oceano nunca é diferente de suas ondas, e as ondas nuca são diferentes do oceano. Ambos são uma mesma coisa. É o Ātman que se torna este universo multifacetado. Se eu machuco alguém, na verdade machuco a mim mesmo, portanto não devo ferir ninguém, e essa realização é a base da ética hindu.
O Īsha Upanishad diz com grande beleza, “Aquele que vê todos os seres no Ser, e o Ser em todos os seres, não odeia ninguém.” A possibilidade de odiar os outros, existe apenas quando não estamos cientes dessa unidade. O Brihadāranyaka Upanishad encontra-se um dialogo entre o sábio Yājnavalkya e a sua virtuosa esposa, Maitreyī. Durante o diálogo, Yājnavalkya diz que, estar ciente do Ser em todos, torna-os queridos para nós. A meta espiritual do hinduísmo é experienciar esse Ser divino dentro e fora de nós.
DHARMA OU DEVERES RELIGIOSOS
A Palavra dharma tem um papel muito importante na ética hindu. Dharma geralmente significa religião, mas também significa deveres morais e éticos. Uma das definições de dharma diz “Dhārayati dharma ity āhu” - “o que quer que sustente é dharma.” O Ser divino é a própria fundação do nosso ser, e é isso que nos sustenta. Portanto, de acordo com tal definição, o significado mais elevado da palavra dharma é o Ser divino no homem, o Ātman.
No entanto, no que diz respeito a prática diária da moralidade e da ética, dharma tem um significado relativamente menor no hinduísmo. Na vida mundana existem diferentes tipos de dharma, tais como o vyakti-dharma, ou o dharma do indivíduo, o pārivārika-dharma, ou o dharma para com a família, o samāja-dharma, ou o dharma para com a sociedade, rāshtra-dharma, ou o dharma para com a nação, e o mānava-dharma, ou o dharma para com a humanidade.
(...)
A IDÉIA E A PRÁTICA DA NÃO-VIOLÊNCIA
NO HINDUÍSMO
Apesar de considerar a não-violência uma virtude, o hinduísmo não é cego ao fato de que devemos ser violentos de um modo ou de outro para sobreviver. Milhares de formas de vida microscópicas são mortas toda vez que respiramos, cada grão de comida que comemos contém vida, portanto é impossível evitar completamente que cometamos violência. Tudo que o hinduísmo espera de seus seguidores, é que estes, minimizem conscientemente a violência, o tanto quanto for prático, assim livrando-se de uma atitude mental violenta.
Não obstante, a violência que se justifica numa causa nobre, pode às vezes ser apoiada pelo hinduísmo. Tal justificativa deve vir do que é ditado pelas escrituras, e não de qualquer outra fonte. Se um inimigo ataca um pais, os soldados devem repelir, subjugar ou matar o inimigo. Defender o pais é o dever religioso dos soldados, embora matar um inimigo que está fugindo, ferido, sem defesa ou incapacitado, não é permitido pelas escrituras. Um soldado que foge do campo de batalha por medo, e quer justificar a sua covardia na virtude da não-violência, faltou no cumprimento do seu dever e é um hipócrita.
Idealmente falando, uma pessoa que é verdadeiramente não violenta, não deve ferir ninguém seja fisicamente, mentalmente ou verbalmente. A total não-violência é possível apenas para uma alma espiritualmente iluminada, pois tal alma perde a sua falsa identificação com o complexo corpo-mente e vem a conhecer a sua verdadeira identidade divina. Ela experiencia Deus como sendo a essência de todas as coisas e de todos os seres, inclusive ela mesma, não podendo assim odiar ou prejudicar ninguém.
Apenas uma pessoa assim pode amar aos seus inimigos, porque não vê inimigos em lugar algum. Tudo que ela experiencia é a manifestação de Deus, e por não poder se identificar com o complexo psico-físico, não pode se responsabilizar pelo que o seu corpo e mente fazem. Ela perde a noção de que é ela que age, transcendendo assim a violência. O Bhagavad Gītā (18/17) diz, “Aquele que não tem a noção de que é o fazedor, ou o egoísmo, e cujo intelecto não se considera responsável pelas ações do corpo e dos sentidos, ele não mata e não é escravizado pelo resultado disso.”
GLOSSÁRIO
AHIMSA- Termo em sânscrito que significa não-violência.
BUDISMO – Doutrina religiosa propagada por Siddartha Gautama, denominado Sakyamuni, por ser da família dos Sákyas, filho do rei Sudhordhanna.
Siddartha abandonou a vida de Príncipe e construiu uma doutrina baseada na meditação e que tem como um dos preceitos básicos o conceito de compaixão.
CASTAS – Interpretação tadicional do hinduísmo que divide a sociedade em grupos distintos e fixos. Atualmente o sistema de Castas é considerado ilegal na Índia, já tendo sido questionado por muitos teóricos indianos.
CONFÚCIO – Mestre, filósofo e teórico político da China Antiga, cujas idéias influem em todo o extremo Oriente. Viveu entre 550 a .C. e 470 a .C.
Suas teorias tem por base a honra, ética e a moral na política e nas relações sociais. A religiosidade está presente em suas teorias. Alguns teóricos identificam suas teorias como materialistas.
DAIMYO – Senhor de Terras e governante durante a idade média no japão.
HAN – Dinastia chinesa que existiu entre os séculos II a.C. e IId.C., sendo considerado este um dos grandes períodos da História da China.
HINDUÍSMO – Religião indiana mais antiga, baseada na trindade Braman-Vishnu-Shiva (respectivamente os aspectos criador, conservador e transformador de deus) e nos conceitos de Dharma, Sathya, Premah e Ahimsa (respectivamente retidão, verdade, amor e não-violência).
IMPERIALISMO – Prática ocidental de estender os impérios sobre as ditas nações mais necessitadas. Na prática, representou exclusivamente dominação de nações belicamente inferiores e sua usurpação.
ISLAMISMO – Religião monoteísta propagada pelo profeta Muhammad e seus seguidores, com grande impacto em todo o mundo.
ORIENTALISMO – Conceito que representa a apropriação do Oriente pelo Ocidente de forma equivocada e pragmática, qualificando como inferior. Seu principal teórico foi o pesquisador palestino Edward Said.
JINNAH, MUHAMMAD – Líder muçulmano responsável pela criação do Estado do Paquistão após a independência da Índia.
KANAWARA MATSURI – Conhecido também como “Festival do Pênis Rosa” ou “Festival do Falo de Aço”, que ocorre na cidade de Kawasaki, no Japão. Tem por objetivo o culto à fertilidade, que ocorre em todo o território japonês no mesmo período do Festival, ou seja, no início do mês de abril.
LAO-TZU (LAO-TSÉ) - Filósofo e alquimista chinês que teria vivido entre os séculos XIV e XIII a.C., a quem é atribuída a autoria da obra Tao-Te King. Nesta obra estão as bases do taoísmo, um doutrina filosófica e religiosa de grande impacto no mundo oriental, assim como o confucionismo e o budismo.
MAHATMA – Título Hindu que significa “Grande Alma”.
MEIJI – Imperador do Japão no período da conhecida “Era Meiji”, que suprimiu o Shogunato e instaurou a modernidade capitalista no Japão.
MING – Dinastia chinesa que governou entre os séculos XIV e XVII da era cristã.
MONOPÓLIO – Esclusividade de uma determinada prática.
NEHRU, JAWAHARLAL PANDITJI – Líder hindu mais próximo a Gandhi, que foi Primeiro Ministro após a independência da Índia e o primeiro governante indiano após a Morte de Gandhi. Uma das principais universidades indianas da atualidade leva o seu nome.
QIN SHI HUANGDI – Unificador do Império Chinês, viveu entre 260 e 220 a .C.
Sob seu império iniciou-se a construção da Muralha da China, o mais importante e característico monumento daquele país.
SAMSARA – Representa o fluxo das reencarnações segundo a doutrina hindu.
SAMURAI – Guerreiro japonês que representa a aristocracia das armas, cujas características são a honra, a lealdade e a habilidade com as armas, sobretudo a Katana.
SIKHISMO – Religião monoteísta originária do hinduísmo e do islamismo, fundada no século XV pelo Guru Nanak.
SHÓGUN – Líder militar e governante do Japão até a Era Meiji, muitas vezes nomeado pelo próprio imperador.
TANABATA – Festival das Estrelas no Japão, cujas práticas ocorrem no sétimo dia do sétimo M~es de determinado ano.
TOKUGAWA – Família de Shóguns que governou o Japão entre 1603 e 1868 d.C.
XINTOÍSMO – Religião japonesa baseada no culto aos espíritos dos antepassados.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Disponível par\ baixar, bem como diversos livros sobre a China, em Francês, no site da Universidade de Quebec – Canadá
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Obs: Disponível para baixar em Português no link
Disponível para ler em português no link
Disponível para baixar em Espanhol no link
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Bibliografia Complementar
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GATTAZ, André. A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à nova Intifada. São Paulo: Usina do Livro, 2002.
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ISBELLE, Sami Armed. O Estado Islâmico e sua Organização. Rio de Janeiro: Azaan, 2008.
PANNIKKAR, K. M. A dominação ocidental na Ásia: do século XV aos nossos dias. Rio de Janeiro: paz e Terra, 1967.
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